Filme ‘Kursk’ revê tragédia no fundo do mar

Filme ‘Kursk’ revê tragédia no fundo do mar

‘A Última Missão’, que agora estreia, lembra o naufrágio de submarino russo com 118 pessoas a bordo e o descaso do governo

Mariane Morisawa , ESPECIAL PARA O ESTADO  TORONTO

10 de janeiro de 2020 | 07h00

O acidente com o submarino nuclear russo Kursk aconteceu em 2000, nove anos após a dissolução da União Soviética. Mas guarda alguns paralelos com Chernobyl, em 1986, tema de uma das séries de maior sucesso do ano passado, ainda que as proporções não possam ser comparadas. O Kursk partiu para um exercício com 118 pessoas a bordo, explosões foram detectadas por navios nas redondezas, mas houve demora em perceber que o acidente tinha acontecido e depois na declaração de emergência pela Marinha russa. As tentativas de resgate fracassaram, mas o presidente Vladimir Putin recusou as ofertas de ajuda. Houve muita desinformação, e o submarino só foi completamente içado do mar muitos meses depois. Investigações apontaram que cerca de 20 homens sobreviveram às explosões e se refugiaram num dos compartimentos, mas morreram devido à demora no resgate.

Em Kursk – A Última Missão, o cineasta dinamarquês Thomas Vinterberg, famoso por ter feito parte do movimento Dogma com filmes como Festa de Família e dono de uma carreira variada, decidiu contar essa história do ponto de vista dos homens tentando sobreviver no submarino (liderados por Matthias Schoenaerts como Mikhail Averin). “No Ocidente somos O Resgate do Soldado Ryan, uma pessoa é o suficiente para justificar uma operação gigantesca, por exemplo”, disse Vinterberg ao Estado no Festival de Toronto. “Havia algo nessa história do Kursk, de sacrifício pelo país, pela Rússia, que tem algo de nobre, mas, ao mesmo tempo, não são os indivíduos que decidem nesse caso. É esperado deles que se sacrifiquem pela pátria.”

O filme tem cenas complicadas em ambientes apertados e cheios de água. “Foi muito complexo tecnicamente, mas achei fascinante, interessante e divertido”, afirmou o diretor. “Tínhamos 18 atores, 18 dublês para podermos salvá-los se preciso. É necessário ter rotas de fuga, há muita eletricidade e iluminação, o que é perigoso perto de água. E isso tudo é muito diferente do que costumo fazer.”

Seu objetivo foi ser o mais fiel possível à realidade, inclusive rodando na Rússia. Mas nem tudo saiu como esperado. “Os russos inicialmente iam ajudar com informação e acesso. Mas logo surgiram autoridades que precisavam ler o roteiro e fazer comentários, se é que você me entende”, contou Vinterberg, esclarecendo que não se tratava de questões técnicas e de informações estratégicas que qualquer governo do mundo poderia sugerir. “Estávamos sendo censurados.” Outra adaptação foi que os atores, vindos de diversas partes do mundo – o inglês Colin Firth faz um comandante britânico que oferece ajuda para o resgate, e a francesa Léa Seydoux é a mulher de Averin, que luta para descobrir a verdade –, falam inglês.

Para o belga Schoenaerts, trata-se de uma clássica história do homem contra o sistema. “E isso continua relevante hoje em dia, porque parece um padrão no mundo inteiro, na Europa, na América do Sul, na África, que os governos estão negligenciando seus cidadãos. E muitas vezes de forma muito mais sutil e pouco perceptível.”

Vinterberg achou fascinante falar da morte. “Não falamos sobre isso. Antes era mais comum porque morríamos mais jovens e morríamos com mais frequência. Morrer era parte da vida. Agora não. É algo que tememos. Por isso o cinema e a literatura parecem tratar cada vez mais desse tema”, explicou. “Esse filme é uma história muito literal sobre como você se comporta quando vê a morte chegando. E isso me interessa e aterroriza.”

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