Heretic
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Filme iraniano ‘Pari' faz uma viagem ao lado mais sombrio da natureza humana

Longa de estreia de Siamak Etemadi traz o enigma humano em cena de confronto entre país islâmico e o Ocidente

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2020 | 17h28

É o longa de estreia de um autor iraniano, mas dificilmente poderia ter sido rodado no Irã. Siamak Etemadi vive na Grécia. Foi lá que fez Pari, exibido na 44.ª Mostra. O filme é dedicado à sua mãe. A atriz germano-iraniana Melika Foroutan é quem faz o papel. É deslumbrante. O cinema tem contado muitas histórias de jovens muçulmanos que abandonam as famílias para seguir o Islã. O público já acompanhou as jornadas de pais (Meu Querido Filho, de Mohamed Ben Attia) e avós (Catherine Deneuve em Adeus à Noite, de André Téchiné) para tentar resgatar essas ovelhas desgarradas.



Pari é sobre um casal de iranianos que chega ao aeroporto de Atenas. O filho deveria estar a esperá-los. O garoto foi cursar a universidade na Grécia. Não aparece no aeroporto, não habita mais o endereço combinado, há mais de ano deixou de frequentar as aulas. O pai não é o biológico, mas deu seu nome ao jovem e certamente o ama. O casal inicia uma busca na cidade - na noite de Atenas. O filho integrou um grupo anarquista, entregou-se aos prazeres da carne com prostitutas. A mãe vaga na noite, ela própria muitas vezes tratada como p... Encontra a mulher mais velha com quem o filho andava ficando. Essa lhe diz que é muito diferente da descrição que o rapaz fazia dela. E como era a descrição? Ele dizia que a mãe se assemelhava à mulher de um aiatolá.


 


No ano passado, com todos os grandes filmes apresentados na 43.ª Mostra, o melhor e mais perturbador de todos talvez tenha sido o mexicano El Diablo entre las Piernas, de Arturo Ripstein. Uma viagem ao lado mais sombrio da natureza humana - como Pari. A mãe também tem o diabo, senão entre as pernas, no corpo. Não é uma questão de libido. Há um mal-estar, uma angústia. Ela certamente não é o que parece - nem p... nem mulher do aiatolá. Etemadi baseou-se nos versos do poeta persa Rumi, ‘A saudade do amado’. 

Muitas vezes, é preciso perder-se para se encontrar. Neste ano de pandemia, de desastre sócio-político-econômico, o enigma do humano segue sendo prioridade na Mostra Internacional de Cinema.

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