Filme gaúcho abre 12º Cine Ceará

O 12.º Cine Ceará começa amanhã à noite, em Fortaleza, com a exibição do longa-metragem A Festa de Margarette, de Renato Falcão, do Rio Grande do Sul. O filme disputa o prêmio principal do certame com outros sete longas: os documentários A Cobra Fumou, Samba Riachão,Timor Lorosae e Viva São João!, e os ficcionais Houveuma Vez Dois Verões, As Três Marias e Uma Vida emSegredo. Fica sendo assim: quatro documentários e quatroficções disputando os mesmos prêmios, numa composiçãoequilibrada raramente presente em festivais, que aindaprivilegiam as obras de ficção.Além dos longas, há o concurso de curtas-metragens empelícula, com 17 participantes, e a mostra competitiva de vídeo,com 11 trabalhos. Isso, na tela. Fora dela, a grande atração do Cine Cearáé a presença, já confirmada, da atriz espanhola Sarita Montiel,que será homenageada. Seu grande sucesso, La Violetera, seráexibido dia 28, na noite de encerramento e entrega de prêmios dofestival. Sarita chega a Fortaleza nas asas de um novo amor, umcubano bem mais moço do que ela. Os pombinhos se conheceram emHavana e não se largaram mais.Como sempre, a expectativa maior do festival se depositasobre os longas-metragens em concurso, embora não seja raro quea qualidade se concentre mais entre os curtas. Mas enfim, olonga é tido como a metragem nobre, que dá mais mídia, entra nocircuito comercial, etc. Por esse tipo de produção se mede asaúde de uma cinematografia e não de outra forma.Os oito longas-metragens são inéditos no Ceará, mas nãoem outras praças. Alguns já estrearam, outros são veteranos defestivais. Samba Riachão, por exemplo, venceu o Festival deBrasília do ano passado, dividindo o prêmio principal comLavoura Arcaica. É um belo trabalho do diretor Jorge Alfredo, que se vale do talento e do carisma de um grande músico popular, Riachão, autor de canções conhecidas como Cada Macaco no seuGalho. Também veterano de Brasília chega Uma Vida emSegredo, adaptação de um livro de Autran Dourado assinada porSuzana Amaral.Para a crítica, o interesse maior fica com Houve umaVez Dois Verões, a estréia do gaúcho Jorge Furtado na direçãode longas. Furtado é autor de Ilha das Flores, talvez ocurta-metragem mais influente do cinema brasileiro contemporâneo, mas até este ano não havia dirigido um longa. Como esperoumuito tempo (Ilha é de 1989), resolveu fazer dois longas aomesmo tempo: além de Houve uma Vez dois Verões, já lançadono Sul, apresenta até o fim do ano O Homem Que Copiava,atualmente em fase de montagem.Para o público, talvez a alegria esteja em outra parte,na desinibida nordestinidade de Samba Riachão e Viva SãoJoão!, dois filmes vivos, para cima, comemorativos. Se Riachão em pessoa comparecer, aí sim a festa será completa. Deveincendiar a platéia do velho Cine São Luiz, na praça do Ferreira centro de Fortaleza, onde ocorrem as sessões. E Viva SãoJoão! chega na hora certa, durante os festejos juninos.Contando com Gilberto Gil como mestre-de-cerimônias, o diretorcarioca Andrucha Waddington visita as festas popularesnordestinas e elege Luiz Gonzaga como a figura central de suaobra.O filme é uma celebração musical - daí não se entendermuito bem a pseudopolêmica em torno de uma possível estetizaçãodas imagens do sertão de que se serve. Mas, enfim, o papelaceita tudo. As Três Marias, de Aluísio Abranches, tambémnão estará a salvo. Há quem considere sua representação dosertão - onde se passa a história de vingança e morte, comtraços fantásticos - francamente estilizada. Entraria no rol do"cinema publicitário", rubrica de um suposto estilo de filmenacional, que ainda não foi caracterizado conceitualmente. O queé cinema publicitário? Aquele dirigido por publicitários? Masentão a grande maioria dos cineastas caberia no figurino, poisquase todos complementam a conta bancária trabalhando emagências - mesmo os mais "autorais". Enfim, são discussõespendentes, e que podem aflorar no festival, foro indicado paraisso.Talvez as vocações críticas mais belicosas pudessemgastar melhor seus cartuchos com outros dois filmes em concursoe examinar a maneira como representam seus temas: TimorLorosae, de Lucélia Santos, sobre a trágica luta dostimorenses pela independência em relação à Indonésia, e ACobra Fumou, de Vinícius Reis, que comenta a participação daForça Expedicionária Brasileira na 2.ª Guerra Mundial.

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