Divulgação
Divulgação

Filme 'Fogo no Mar' abre o festival É Tudo Verdade

Giafranco Rosi explica o processo do longa e diz que só filma personagens que o impressionam

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2016 | 04h00

Em menos de três anos - entre setembro de 2013 e fevereiro deste ano -, o italiano Gianfranco Rosi fez história vencendo dois dos maiores festivais de cinema do mundo. O fato, por si só, seria notável, mas ele ainda venceu com documentários e a tradição mostra que, na maioria das vezes, os júris não sabem como proceder diante de obras do gênero, preferindo, invariavelmente, as ficções. Rosi venceu em Veneza com Sacro Gra e, este ano, em Berlim, com Fuocoammare, Fogo no Mar. O segundo abre nesta quinta, 7, em São Paulo, o Festival de Documentários É Tudo Verdade e depois terá mais uma exibição no evento, antes de estrear na quinta, 28.

No Rio, o festival começa na sexta, 8, com As Incríveis Artimanhas da Nuvem Cigana, nacional de Paola Vieira e Cláudio Lobato. Em ambas as capitais, encerra-se dia 17 e, na sequência, a partir de 20, viaja por cidades como Santos. Criador do evento, Amir Labaki está feliz da vida com seu rebento que atinge a maioridade - é a 21.ª edição. O festival vai exibir 85 filmes de 26 países, fará homenagens a Ruy Guerra, Chantal Akerman, Claude Lanzman e Haskel Wexler e ainda terá a retrospectiva de Carlos Nader. Amir, que também é crítico, e dos bons, não deixa por menos - “Estamos abrindo o festival, nas duas capitais, com filmes tão diversos quanto cativantes. De maneira geral, a barra está muito alta. Não me lembro de uma competição brasileira com tão grandes filmes e diretores, e a internacional também vai surpreender e até emocionar. É a prova de que o documentário está tão criativo ou mais que a ficção.”

Não fale nessa divisão para Gianfranco Rosi. O mestre conversou pelo telefone com o repórter. Para ele, documentário é filme “e os filmes são verdadeiros ou falsos”. Basta. Para entrevistar Rosi, foi necessária uma caça ao homem. No fim de semana, ele estava em Nova York. Na terça, 5, foi localizado em Atenas, onde, à noite, Fogo no Mar teve sessão especial, seguida de debate, na Fundação Onassis. Rosi tem acompanhado o lançamento internacional - nos EUA, o filme estreia em outubro e ele participou de um “Memorial”. Gostaria de ter vindo ao Brasil, mas teve de preparar a exibição especial em Lampedusa. “Sinto que tenho essa obrigação. O povo que me acolheu tão bem para que eu fizesse o filme ainda não viu. A sessão será no dia 15. Com Sacro Gra foi a mesma coisa. Mostrar os filmes para os que os fazem comigo é mais que um agradecimento. É uma forma de reconhecer que, sem essas pessoas, não sou ninguém”, acrescenta.

Na entrevista por telefone, de Atenas, Gianfranco Rosi contou a gênese de Fuocoammare, Fogo no Mar, que venceu o Festival de Berlim, em fevereiro, e inaugura nesta quinta, 7, o 21.º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, em São Paulo. Mais três semanas e o filme estreia em 28 de abril, distribuído pela Imovision. “O Instituto Luce me convidou em 2014 para fazer um filme na ilha de Lampedusa. Um naufrágio produzira muitas mortes, mas o Luce não me encomendou nenhum filme em particular. Fui, e como sempre faço, me apropriei da paisagem, busquei as pessoas. Para fazer um filme, preciso me apaixonar. Se eu não me envolver com as pessoas que filmo, será muito difícil envolver o público.”

Rosi fala muito em “filme”. Detesta a divisão entre documentário e ficção. “Para mim, filmes são verdadeiros ou falsos, bons ou ruins.” Ele responde à pergunta que, desde Berlim, o repórter queria lhe fazer. Fogo no Mar retrata a tragédia dos imigrantes na ilha de Lampedusa pelos olhos de um garoto. Transforma a tragédia em lirismo. Alguma influência de Louisiana Story, de Robert Flaherty? Em 1948, Flaherty, que já era um grande diretor, aclamado por seus documentários - Nanuk, o Esquimó e O Homem de Aran -, quis fazer um filme para discutir a questão do petróleo no mundo. As chamadas ‘irmãs’, as grandes companhias que operavam no setor, não lhe permitiram levar adiante o projeto. Ele resolveu o impasse fazendo seu filme pelos olhos de um menino. A denúncia virou lirismo.

Ao anunciar sua escolha de Fogo no Mar para abrir o festival em São Paulo, Amir Labaki disse que Rosi trata com incrível delicadeza e notável talento narrativo a crise humanitária dos refugiados na Europa. De acordo, mas e Flaherty? Agora é Rosi quem fala - “Flaherty foi um grande diretor e permanece uma referência para quem faz e gosta de cinema, mas ele filmou Louisiana Story com roteiro. Eu, não.” Seu método foi o mesmo empregado em Sacro Gra, sobre o círculo viário ao redor de Roma. “Fui à ilha, conheci as pessoas. O primeiro foi o doutor Bartolo, que me introduziu na tragédia dos imigrantes. O bambino veio depois.”

Lampedusa fica no meio do oceano, a meio caminho entre a costa da África e a Sicília. Ali, têm aportado muitos barcos abarrotados de imigrantes, que buscam a Europa como o paraíso. As condições são inumanas. Barcos naufragam. Para muita gente, a viagem termina em morte. Rosi filma o dr. Bartolo, dá voz aos imigrantes. Filma o menino. Ele brinca de guerra, vai ao oculista, porque precisa de óculos. Uma metáfora para a cegueira dos que não querem ver a tragédia dos imigrantes? “Foi assim que você viu? Pode ser, mas nada foi premeditado. Filmo o cotidiano. O menino brinca, precisou ir ao médico. Segui-o com minha câmera. Em nenhum momento lhe disse - faça isso, ou aquilo.”

O cinema de Rosi tem essa mobilidade porque ele é sua equipe. “Faço a câmera, a luz, o som. Em geral, tenho apenas um assistente comigo.” Curiosa, a trajetória pessoal do diretor. Sua infância e parte da adolescência foram vividas na África e na Turquia. A descoberta do cinema foi tardia. “Vi meu primeiro filme aos 18 anos, quando estava convencido de que seria médico.” A medicina foi abandonada, ou melhor, substituída. “De uma maneira ou outra, continuo me interessando por gente. As pessoas são meu material.” Ele filmou 70 horas para Fogo no Mar. “Para Sacro Gra, foi mais ou menos a mesma coisa. A diferença é que lá tem muito mais gente e eu também dispunha de muito mais tempo.” 

Em Berlim, alguns críticos contestaram a decisão do júri presidido por Meryl Streep de atribuir o Leão de Ouro a Fogo no Mar. Dissertam que ela fez o que esperava o diretor da Berlinale, Dieter Kosslick. O festival deste ano mostrou muitos filmes sobre imigrantes e houve uma mobilização para levantar fundos de apoio em todas as sessões. Nada disso invalida a ousadia e grandeza do júri, que premiou uma obra excepcional. Em Berlim, Rosi já havia destacado a generosidade do povo da ilha de Lampedusa. “Como pescadores, eles estão acostumados a receber o que o mar lhes oferece. Recebem os imigrantes. É uma tragédia contemporânea, o novo genocídio, o novo Holocausto, e a maioria finge que não vê. Espero que o filme sirva para debater essa questão, que é visceral. Todas essas mortes, esse sofrimento, somos todos responsáveis. Não adianta fechar os olhos.” Seu plano imediato é fazer mais um filme - para vencer Cannes, o repórter provoca? - e parar. Como assim, parar? “Quero lecionar, meu sonho é dar um curso de cinema para jovens, ver nascer os filmes deles.”

PÉROLAS DO FESTIVAL

'Jonas e o Circo Sem Lona'

De Paula Gomes. Garoto mantém um circo no fundo do quintal. A obrigação de estudar, os amigos que partem e a própria adolescência tornam seu sonho difícil de sustentar.

'Galeria F' 

De Emília Santiago. Integrante da guerrilha, Theodomori Romeiro dos Santos foi condenado à morte, acusado do assassinato de um sargento. Mas ele fugiu e o filme acompanha sua incrível trajetória para sobreviver.

'Cícero Dias, o Compadre de Picasso'

De Vladimir Carvalho. O retrato do pintor pernambucano.

'Imagens do Estado Novo'

Direção de Eduardo Escorel. A revisão da ditadura de Getúlio Vargas, suas fontes de inspiração externas e formas de funcionamento. Um trabalho rigoroso de pesquisa, com quase quatro horas de duração.

'O Oco da Fala'

De Miriam Chnaiderman. A violência do Estado recontada por vítimas da ditadura cívico-militar.

'Cidadão Rebelde'

De Pamela Yates. Haskel Wexler como você nunca viu. O fotógrafo premiado de Hollywood e o realizador de documentários militantes foram uma única e extraordinária pessoa. Um tributo ao artista que morreu no ano passado.

'Não Pertenço a Lugar Nenhum'

De Marianne Lambert. A autora ilumina vida e obra da exigente Chantal Akerman, que se suicidou no ano passado.

'Claude Lanzmann: Espectros da Shoah'

De Adam Benzine. O autor reúne material inédito do clássico de Lanzmann sobre o Holocausto e revisa a trajetória do cineasta que mais se dedicou à abordagem do assunto.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.