Filme flagra a intolerância das grandes cidades

A cena começa num canto de esquina em Paris. Um idiota joga um saco de papel vazio em cima de uma mendiga que pede esmola. Um rapaz resolve tomar as dores da pedinte e arranja encrenca com o outro. Chega a polícia e a corda, como de hábito, arrebenta do lado mais fraco. A mendiga é remetida de volta ao seu país de origem. Seu defensor é levado para a delegacia, pois a cor da pele o transforma em suspeito automático, e tudo segue seu curso. É o começo de Código Desconhecido, filme de Michael Haneke que entra nesta sexta-feira em cartaz.Haneke você já conhece como autor do quase indigerível Violência Gratuita (Funny Games), no qual o sadismo de uma dupla de delinqüentes é levado ao limite. Uma espécie de Laranja Mecânica dos anos 90, sem um pingo da aura do original de Kubrick. Com seu mais recente trabalho, A Pianista, o austríaco Haneke ganhou três troféus no recém-encerrado Festival de Cinema de Cannes: ator (Benoit Magimel), atriz (Isabelle Huppert) e prêmio especial do júri. Pelo que se diz, mais uma vez o niilismo contemporâneo se impõe como tema para Haneke. Não é um cinema de fácil assimilação. Mesmo assim, concede-se que tenha algo, talvez muito, a dizer. E seguramente este é o caso de Código Desconhecido, talvez o mais bem realizado dos filmes do diretor.Nele, as motivações de Haneke afloram com clareza. A idéia é flagrar, segundo vários pontos de vista, as formas de intolerância que convivem numa grande cidade moderna. Anne (Juliette Binoche) é a atriz que roda um filme (sobre a violência) e não consegue acertar-se com o namorado, um fotógrafo que vem de uma das muitas zonas de guerra do planeta. A pedinte é uma imigrante clandestina, vinda de um país do Leste Europeu que, com o fim do comunismo, entrou em colapso econômico. Amadou (Ona Lu Yenke), o rapaz negro que a defende da humilhação, vive os problemas de sua família, de origem mali, sempre às voltas com a difícil adaptação em um país como a França.A experimentação formal costumeira em Haneke, que parece deslocada em Violência Gratuita, aqui funciona muito bem. Trata-se de uma mistura de técnicas que acaba se revelando equilibrada e sobretudo eficiente. Há cenas de um naturalismo cru, como aquela do assédio da personagem de Juliette por um delinqüente num trem do metrô. Em outras, a metalinguagem se impõe, como no filme dentro do filme, protagonizado pela atriz. Em uma cena desse filme fictício, ela se vê presa em uma armadilha mortal. Em outra, assusta-se com o filho debruçado na borda de um terraço de um prédio alto. A (re)construção da realidadade passa por um retrato fiel dela, mas também atravessa o filtro da ficção. Somados, os recursos se amplificam mutuamente. De tal forma, que o todo fica maior do que a soma das partes, indício de que a obra funcionou.Haneke usa outra estratégia que vem se tornando comum, juntar os fios de diversas histórias independentes, enlaçadas por um acontecimento casual. Há algo disso no mexicano Amores Brutos, que também estréia amanhã, que o torna próximo de Código Desconhecido. Neste caso é a briga de rua por causa da mendiga, quando todos os personagens, de estratos sociais diferentes, passam a circular no mesmo universo ficcional. Uma maneira de dizer que tudo está interligado. E que não há, hoje, limites claros, nem entre indivíduos, nem entre países, e nem mesmo entre classes sociais. No entanto, o encontro entre diferentes se dá não pela harmonia da assimilação das diferenças mas (a cada vez mais) pela violência que procura anular o outro.Código Desconhecido (Code Inconnu) - Drama. Direção de Michael Haneke. Fr/2000. Duração: 118 minutos.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.