Victor Jucá
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Filme ‘Fim de Festa’, de Hilton Lacerda, usa trama policial para refletir sobre o Brasil

Irandhir Santos e Hermila Guedes estão no elenco do longa-metragem

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

07 de março de 2020 | 07h00

Fim de Festa: o título do novo filme de Hilton Lacerda contém certa carga de ambiguidade. Depende do ponto de vista de quem olha. Pode ser a melancolia pela chegada ao fim de um período feliz. No extremo oposto, seria uma chamada à ordem. “Acabou a ‘farra’, agora somos nós que mandamos”, o que seria um comentário sobre a atual conjuntura do País, vocalizada pelos novos donos do poder. 

Em todo caso, Fim de Festa ambienta-se no Recife, na quarta-feira de cinzas de um carnaval que deixou uma ressaca daquelas. Em especial porque um crime foi cometido durante a festança. Uma turista francesa foi assassinada e por isso o investigador Breno (Irandhir Santos) teve de interromper as férias e voltar ao trabalho. Há um grão de realidade aí. Lacerda inspira-se no assassinato de uma turista alemã no carnaval de 2010, caso de enorme repercussão. 

Ao voltar ao seu apartamento, Breno encontra-o ocupado. Seu filho, Breninho (Gustavo Patriota), arrastou para lá três amigos desgarrados: Penha (Amanda), Indira (Safira Moreira) e Angelo (Leandro Villa). Breno convive com os jovens e dá início à investigação. 

Certo, há esse crime a ser esclarecido, o que ocupa bom espaço do longa. Mesmo porque a mulher assassinada veio ao Recife em companhia da família e essa mostra-se louca para terminar os trâmites legais e voltar para a França. Há nuances aí e elas merecem a atenção do espectador para não se perder no labirinto do enredo. 

Mas seria engano reduzir Fim de Festa a uma obra de investigação criminal. A trama policial é mais uma espécie de planta baixa, um esquema sobre o qual se constrói o edifício. E esse tem muito a dizer sobre o Brasil contemporâneo. 

A começar pela posição dos jovens hospedados na casa de Breno, que parecem prolongar um carnaval particular depois que a festa oficial acabou. Surgem dissonâncias. Quando as duas moças resolvem tirar a parte de cima dos biquínis na praia, são confrontadas pela moral da classe média. Moral que passou a se exprimir alto e bom som, e de forma agressiva, de uns tempos para cá. Uma dessas senhoras pede a intervenção da polícia e diz aos jovens: “Quero meu País de volta, hein?”.

Frase curiosa, porque ambivalente. Pode ser reivindicada pelos dois lados da sociedade polarizada. De um, como se pedisse a volta de uma hipotética ordem, comprometida pelo avanços sociais como os de grupos feministas, LGBTs e do movimento negro. De outro, são as pessoas de índole progressista a lamentar que a liberação dos últimos anos esteja sendo corroída pelo neomoralismo atual, reacionário, violento e em vias de se institucionalizar. Lados opostos querem o “seu” Brasil de volta. E aí está toda a questão, porque ninguém sabe ao certo qual é esse Brasil que se deseja recuperar. 

No meio dessas ambivalências mais gerais, há também a de Breno, essa figura de duas faces, no mínimo. Breno parece avançado demais para um policial típico. Fuma maconha com o filho. E, depois de certa irritação inicial, tolera bem a convivência com os amigos do filho hospedados em sua casa. Gente, diga-se, que nada tem de ortodoxa em nível de comportamento, sexual inclusive. 

Apesar de tudo, Breno parece um homem solitário e triste. Mal ajambrado em sua pele de policial, declara-se, no entanto, um apaixonado pela investigação. Ora, o que é um investigador, no sentido mais amplo? Aquele que tem paixão pela verdade e dedica a vida à sua busca. E, se é um bom investigador, sabe que nunca chegará à verdade absoluta. Apenas a aproximações da verdade, máscaras atrás das quais ela se esconde. 

A tristeza de Breno tem a ver também com uma mulher querida deixada no passado (Hermila Guedes faz um papel duplo em torno dessa personagem). Há então essa luz de melancolia que banha esse filme, solar em outros momentos. 

No mais, talvez seja interessante construir uma ponte entre Fim de Festa e o longa anterior de Hilton, Tatuagem, de 2013. Dois momentos profundamente diferentes do Brasil, como se fossem dois países distintos. Em Tatuagem, Hilton ia ainda um pouco mais atrás, para o final dos anos 1970, quando a ditadura declinava, mas ainda mostrava suas garras. Lá, o personagem principal era Clécio, mestre de cerimônias de uma espécie de cabaré libertário, o Chão de Estrelas. Não por acaso vivido por Irandhir Santos que, agora, reencarna em Breno, o policial atormentado. 

Essa passagem de tempo entre os dois filmes, com suas continuidades e rupturas, simboliza esse país que nunca anda em linha reta e, em momentos de máxima liberdade, parece sempre prestes a recair no abismo e retornar às trevas. 

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