Filme faz um retrato nostálgico do rock inglês

Manchester, 4 de junho de 1976. Nesse dia, o rock inglês mudou completamente. O primeiro e lendário show dos Sex Pistols, visto por 42 pessoas, influenciaria a cena musical e resultaria no nascimento de bandas como Joy Division (mais tarde, após o suicídio do vocalista Ian Curtis, rebatizada de New Order), Durrutti Column, Happy Mondays e outras. Por trás delas, estava a Factory Records, selo criado por Tony Wilson, um repórter de televisão com visão empresarial e vocação para a anarquia, além de mais dois sócios. Esses são os personagens de A Festa nunca Termina, de Michael Winterbottom, um olhar nostálgico sobre aquele período atribulado, que mistura de ficção e documentário com alguma ousadia e muita confusão.Toda a história é contada por Tony Wilson, na pele do comediante inglês Steve Coogan. Wilson fez parte da seleta platéia que assistiu aos Pistols em 1976, seqüência inicial do filme, e indica quem na sala despontaria, mais tarde, para o sucesso. Identifica Ian Curtis, o genial e atormentado vocalista do Joy Division, os Buzzcocks, o produtor Martin Hannett, além de outros integrantes daquela epifania coletiva. Entre eles, Mick Hucknall, vocalista do Simply Red, para quem foi guardada uma das boas e justas ironias do roteiro. "Como um cantor ruivo poderia dar certo?", pergunta.Pretensamente sério e libertário, Wilson tem uma visão. Reunir as bandas sob um selo em que não há contratos e os lucros revertem igualmente para todos. Redige e assina a promessa a sangue, num guardanapo de papel. Cria o The Hacienda, um clube que entraria para a história da crônica da noite no mundo inteiro. Ali começou o Happy Mondays, do embriagado e fanfarrão Shaun Ryder. Se no final dos anos 70 Wilson e seus amigos abriram caminho para uma revolução no rock, com a casa noturna eles pavimentaram a estrada para a ascensão dos DJ?s e da música eletrônica.Winterbotton conduz a narrativa de maneira tão anárquica e libertária quanto seus personagens. O suporte digital, a mistura do real com o encenado, o bonachão Wilson que fala diretamente para a câmera, tudo compete para um clima nostálgico e saudosista. O que talvez tenha faltado nessa saudável festa musical é mostrar de que maneira todos eles ajudaram a mudar o comportamento de uma geração inteira. Faria uma grande diferença.

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