Filme faz crítica à Espanha católica

Apesar do título, não há mar nofilme de Agustí Villaronga que estréia nesta sexta-feira. Omar é apenas referido nos diálogos, mas interessa ao diretorcatalão como metáfora. "O mar, por meio das ondas, penetra e épenetrado se o considerarmos em relação à areia da praia; achoque é o que também ocorre com as pessoas." É um filme pesado,mas não mórbido. A morbidez é associada à doença e ele acha quefez um filme sobre sexualidade e morte para exaltar a vida.Começa com a história de um grupo de crianças durante ofranquismo. O pai de um desses meninos é morto, ele se une adois companheiros para se vingar matando o filho do assassino.Os sobreviventes dessa história de crime na infância carregamtraumas e cicatrizes psicológicas na idade adulta. Não é umargumento original de Villaronga. Ele se baseou num livro deBlai Bonet, autor muito apreciado na Espanha. Explica que oromance é considerado autobiográfico, já que Bonet eratuberculoso e conviveu durante muito tempo com a morte emsanatórios, exatamente como os protagonistas de O Mar.O filme "quase" foi produzido por Pedro Almodóvar, pormeio de sua produtora El Deseo. Quando Almodóvar desistiu,Villaronga já estava tão tomado pelo tema que seguiu adiante, embusca de novos parceiros. Ele conta isso pelo telefone, falandode Barcelona com a reportagem. No filme, os dois meninos quesobreviveram à tragédia vão parar no sanatório, um com trêscruzes - tuberculoso terminal -, o outro com uma. A menina quetestemunhou o crime virou freira - no mesmo sanatório. Forma-seuma estranha situação triangular. A freira nutre uma afeiçãoespecial por um dos garotos, agora homem, e o outro também temuma fixação homossexual nele.Há uma morte a machadadas, um estupro e um assassinatoseguido de suicídio. Correm rios de sangue na tela. Villarongavê no sangue derramado a metáfora da Espanha católica. É o quelhe interessa discutir. Para o diretor, a ponte entrehomossexualismo e morte não se destina a alimentar nenhumpreconceito contra os gays. Ele destaca que os gays espanhóisnão se sentiram melindrados pelo filme. Acha que a profanação dainfância é um tema muito doloroso. Resultou em grandes filmes emseu país: Cria Cuervos e El Sur, de Carlos Saura eVictor Erice. Ataca a estrutura religiosa. "Hoje nem tanto, masno passado a Igreja Católica fez muito mal aos espanhóis."Diz que a guerra civil permanece irresolvida na Espanhae que o próprio mundo vive num estado de guerra, com as pessoastentando destruir-se umas às outras em nome de crenças,ideologias ou simplesmente interesses econômicos. Acreditaprofundamente numa frase do Dalai-Lama, que diz que a verdadeirapaz começa no interior de cada pessoa. O repórter observa que éo que ocorre no fim do filme: a freira, que quer entender ooutro, despe parcialmente o hábito. Não fica claro o que vaiocorrer. É como se ela respirasse entre os movimentos brutais datragédia. Villaronga gosta da interpretação. Está contenteporque seu filme, enfim, estréia no Brasil.O Mar (El Mar). Drama. Direção de Agustí Villaronga.Esp/99. Duração: 107 minutos. 18 anos.

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