Filme expõe distâncias sociais da Itália moderna

Não deixa de ser interessante quelogo no finzinho do ano cheguem ao circuito dois filmes europeus, um da França outro da Itália. Sob a Areia, de François Ozonforma um contraponto interessante com Prefiro o Ruído do Mar, do italiano Mimmo Calopresti, um desconhecido no Brasil, excetopara os freqüentadores da Mostra de Cinema de São Paulo, quandoesse quarto longa-metragem de Calopresti foi apresentado emalgumas sessões. Chega agora ao circuito e pode interessar aespectadores cansados da mesmice do cinemão. Como sugere seutítulo, trata-se de um filme em tom menor.A história é singela. Um homem (Silvio Orlando) traz umrapaz que teve sua mãe assassinada para morar com ele e seufilho adolescente. O garoto morava numa pequena cidade àbeira-mar e deve se mudar para uma cidade grande. Érazoavelmente bem recebido pelo homem e por seu filho, mas temdificuldades de adaptação. No fim, sente saudade do seu"paese" natal e vem daí a frase que dá título ao filme. Sóisso. Só e no entanto se você quiser ter um primeiro contato coma Itália contemporânea, quer dizer com o país real e não o decartão-postal, o filme é este.Calopresti trabalha no mais estrito realismo, tendênciaque se pode observar em boa parte da produção italiana (pelomenos aquela que se consegue ver em festivais e mais um ou outrotítulo que consegue furar o bloqueio e chegar até nós). Como setentassem uma volta às coisas mesmas, ou procurassem retomar umdiálogo interrompido com a sua melhor tradição, o neo-realismoque nasceu no após-guerra e se transformou em uma das maisinfluentes escolas cinematográficas da modernidade. A título delembrete: o Cinema Novo brasileiro começa por reciclar oneo-realismo italiano para as condições brasileiras antes departir para uma linguagem própria. Por isso, Calopresti, em entrevista durante o Festivalde Havana, disse espontaneamente que sua melhor referência seriao cinema brasileiro. Era, de certa forma, como se o círculo sefechasse. O neo-realismo influencia o Cinema Novo e este, tantosanos depois, deixa sua marca na retomada do realismo na Itália.Muitas vezes a cultura avança por meio dessas interferênciascruzadas. Dessa hibridação nasce o novo. No caso de Calopresti, conhecem-se as fontes. A opção éclara e faz-se pelo povo miúdo, a gente pobre, sempre à margemde qualquer tipo de milagre econômico, independentemente dalatitude ou longitude em que ele se produza. Há também a tensãoentre a cidade pequena e a metrópole, tantas vezes explorada emclássicos do cinema italiano como Rocco e Seus Irmãos, deLuchino Visconti.De Visconti, Calopresti retém a simpatia pelos excluídos, mas não o pathos operístico. Prefere trabalhar no minimalismo,como se a atmosfera contemporânea não comportasse nada de muitograndioso, nem mesmo o drama. Mas, na verdade, o que se repõenesse caso é a grande cisão italiana, o embate entre o nortedesenvolvido e sul mais pobre. A "questão meridional", comodizem por lá, que se expressa em preconceito e, levada maisadiante, em movimentos separatistas. Rosario (Michele Raso) é umrapaz da Calábria, portanto terá problemas morando em Turim etendo de conviver com o mimado Matteo (Paolo Cirio), filho deLuigi (Orlando).O convívio põe a nu os preconceitos e a intolerância deuns com os outros. Um pouco da história da Itália contemporâneapassa por essa singela relação entre um homem rico, seu filho eum rapaz pobre e orgulhoso. Que prefere, no fim, ouvir o rumordo mar, o inconfundível som do mar que banha a cidade ondenasceu. Da mesma maneira como Rocco, vivido por Alain Delon,dizia ao seu irmão menor que um dia seria preciso voltar ao"paese", sair de Milão e retornar à Lucânia, o que de fato nãoaconteceu e nem seria possível. Mas era expressão desse desejoinconciliável entre vencer na vida em outro lugar e manter adignidade de suas raízes. Dilema irresolvido e que por issomesmo retorna com freqüência.Prefiro o Barulho do Mar (Preferisoc il Rumore delMare). Drama. Direção de Mimmo Calopresti. It/2000. Duração: 84minutos. 14 anos.

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