Filme explora o voyeurismo pela ótica de um garoto

Faz de Conta Que não Estou Aqui -título longo, não muito feliz, de um belo filme de OlivierJahan. Tema: voyeurismo, já tantas vezes batido no cinema, deJanela Indiscreta a Não Amarás e Dublê de Corpo.Éric (Jérémie Rénier) é o garoto que controla a vida de todomundo no conjunto habitacional onde mora com a mãe - Hélne,vivida por Aurore Clément, a atriz que está presente no episódiofrancês acrescentado por Coppola na nova versão de ApocalypseNow.Éric vai levando a sua vidinha de observador daexistência alheia até ser seriamente perturbado pela entrada emcena de um casal, Tom (Sami Bouajila) e Fabienne (Alxia Stresi).Ele, que é virgem, ou no mínimo sexualmente travado, ficaimaginando o que se passa por trás do cortinado daquele quartoem frente do seu.Jahan é diretor pouco conhecido por aqui. Este não é seulonga de estréia e nota-se que tem cultura cinematográfica. Vêfilmes e incorpora essas experiências à suas próprias. Querdizer, age como o escritor que lê outros autores não para imitarseus estilos, mas para apurar o próprio. Cultura é isso aí.Significa criar sobre uma base já feita, sem precisar fingir queo mundo começou ontem e ninguém fez nada antes.Essa digressão vale porque Faz de Conta Que não EstouAqui é um claro diálogo com Não Amarás, uma dasobras-primas de Krzysztof Kieslowski. Tanto um como outro sãocomentários sobre a natureza do desejo humano. E, como, em setratado de situações voyeuristas, esse desejo é dependente dafunção do olhar. As referências não param por aí, pois oambiente é o mesmo, a relativa impessoalidade dos conjuntoshabitacionais, parecidos, estejam na Polônia ou numa cidadefrancesa.Densidade - O lado, digamos assim, social, aparece maisnessa reinterpretação francesa da função erótica do olhar. SeKieslowski acredita-se suficientemente forte para ficar naquestão existencial e nutrir-se dela, Jahan empresta umadensidade maior a seu personagem. Éric é um voyeur, mas tambémum rapaz desajustado, incapaz de assimilar a morte do pai e,sobretudo, a sua substituição por um padrasto que consideraintolerável. Briga também com a irmã casada e acaba encontrandouma via de escape no relacionamento com Tom e Fabienne, o casalliberado que mora em frente.É um filme de amadurecimento, mesmo que ele venha porvias tortas, como no caso. O interessante é notar como Jahantrabalha bem na construção dos personagens, sua ambigüidade, suacomplexidade, sua espessura, respeitando as características decada um deles. É um cinema de estrutura dramática, não decaricaturas. Faz de Conta Que não Estou aqui (Faites Comme si jen´Étais pas là). Drama. Direção de Olivier Jahan. Fr-It/2000.Duração: 101 minutos.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.