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Filme explora as raízes do Brasil na dialética entre a casa grande e a senzala

Obra de Fellipe Barbosa tem o mérito de recolocar na tela a discussão sobre as tensões da sociedade de classes no País

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

16 de abril de 2015 | 03h00

O título diz muito. Casa Grande, claro, pode indicar o diálogo com o clássico pernambucano de Gilberto Freyre. Casa Grande & Senzala, um dos grandes títulos da “interpretação do Brasil”, dos anos 1930, tendo como “colegas” Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, e Formação Econômica do Brasil, de Caio Prado Jr., revela a estrutura da sociedade de origem escravocrata, que molda o País. Permeado por relações de “cordialidade” e afeto, os conflitos de classe não parecem tão claros no Brasil como em países de formação diferente. Nem por isso são menos graves. 

De certa forma, é nesse vespeiro sociológico que mexe o cineasta Fellipe Gamarano Barbosa, autor de Casa Grande, um dos filmes mais estimulantes do novo cinema brasileiro e que segue, talvez, inspiração semelhante à de O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho. 

Ambos dizem muita coisa a respeito da permanência do passado no presente. O Som ao Redor com seu patriarca reciclando o capital de usineiro na especulação imobiliária, mas recebendo, como uma espécie de retorno do reprimido (para empregar uma expressão de Freud), o contragolpe de ações cometidas no contexto arcaico do meio rural, no qual o mandonismo e a ação de capangas ainda prevalecem. 

Em Casa Grande, o que temos é a família burguesa em crise com a oscilação do mercado de capitais – o pai é um especulador da Bolsa de Valores, um desses golden boys que faturaram muito, e entraram em declínio. Para Hugo (Marcelo Novaes), em ótima interpretação, tornou-se impossível sustentar a mansão (a Casa Grande, de que fala o título). A mulher terá de vender cosméticos para ajudar nas despesas e os filhos precisarão se adaptar à nova realidade. Por exemplo, para o filho mais novo, Jean (Thales Cavalcanti), que é o verdadeiro protagonista da história, será tempo de dispensar o carro particular na ida para a escola e aprender a usar o transporte coletivo. 

O mais interessante se dá na relação entre a família e os empregados da casa. O menino tem no chofer nordestino uma espécie de pai substituto, com quem se aconselha em matéria de sexo. E, claro, a iniciação sexual será tentada com uma das empregadas da casa, interpretada pela ótima Clarissa Pinheiro. Todas essas tensões se exprimem nesse ambiente de crise, em que o dinheiro já não chega para sustentar um meio de vida artificial. 

Assim, apenas em aparência o filme se resume a um rito de passagem adolescente. É – também – isso. E podemos, sem nenhum problema, ter esse tipo de leitura de Casa Grande. Um adolescente de família rica que, de repente, se vê jogado numa realidade diferente da sua e, por paradoxo, nela encontra pontos de referência mais consistentes do que aqueles de que dispunha. 

Mas se Casa Grande é isso, não é apenas isso. Vai muito além. Desvenda nessas aventuras teen, todo um tecido de relações de classes que se revela muito complexo e ambivalente. Como de resto o é na sociedade brasileira. Tanto como O Som ao Redor, é extremamente revelador sobre alguns dados estruturais da sociedade brasileira, que seria interessante levar em conta sempre que analisamos (e às vezes com muita impaciência) a tal da contemporaneidade. 

Fenômenos de ordem conservadora, sentidos como extemporâneos e mesmo bizarros, têm origem na nossa história. Por isso, aparecem de maneira tão forte, por mínimas que sejam as alterações em nossas relações de classes, tidas por consolidadas. No Brasil, qualquer movimento é visto como suspeito. A Casa Grande e a Senzala se relacionam cordialmente. Até o momento em que a senzala se atreve a pisar no tapete da sala, e as relações então desandam. É desse mal-estar contemporâneo, que fala o filme de Gamarano. 

No primeiro plano do filme, vemos a mansão estática, linda e iluminada. No último, o panorama é outro. Literalmente. 

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