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Sam Lévi/EFE
Sam Lévi/EFE

Filme explora a ausência de Brigitte Bardot

Documentarista comenta a hoje trágica figura da musa do cinema dos anos 1960

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

12 de março de 2014 | 03h00

Se até o Oscar homenageou Eduardo Coutinho, você pode estar certo de que o Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade não vai esquecer o grande diretor de Cabra Marcado para Morrer e Edifício Master. Amir Labaki vai anunciar hoje – juntamente com toda a programação da 19.ª edição do evento que coordena (a se realizar entre os dias 3 e 13 de abril) –, que haverá uma homenagem bem pontual e simbólica, lembrando a importância de Coutinho para o documentário brasileiro e o fato de ele ter sido sempre um amigo do evento.

O que você também já pode ir se preparando para ver é um documentário muito interessante sobre um dos ícones do século 20. Uma das – aquela cujas iniciais se tornaram referências em todo o mundo. BB – Brigitte Bardot. Bardot – La Méprise (Bardot – A Desprezada), de David Teboul, vai integrar a mostra Programas Especiais do festival e já tem duas sessões previstas, nos dias 7 e 8 de abril, no Cine Livraria Cultura. Programe-se. O filme fez história na França como o documentário que atraiu mais público ao ser exibido na TV, pela Arté. Numa entrevista concedida sábado, por telefone, de Paris, o diretor fala do É Tudo Verdade, de Brigitte e do próximo projeto, baseado na correspondência de Antonin Artaud.

Como foi a encomenda para fazer o documentário sobre Brigitte Bardot?

Na verdade, é preciso esclarecer que se trata de uma falsa encomenda. Sempre quis fazer um filme sobre ela. Desde que me iniciei nesse mundo do cinema, e me tornei documentarista, sempre pensei num filme sobre Brigitte Bardot. Garoto, sonhava com sua imagem sensual e, adulto, sempre me impressionei com essa mulher que um dia jogou tudo para o alto. Desistiu da carreira e foi viver a vida, militando em outras frentes. Mas o que sempre me convenceu de que um dia eu faria este filme, teria de fazer? Foi a descoberta de O Desprezo/Le Mépris, de Jean-Luc Godard. É o maior papel de Brigitte. Godard, de alguma forma, intuiu que ela largaria tudo. E se trata de um grande, de um imenso filme.

Revi-o num voo da Air France e concordo plenamente. É o meu Godard e aquele travelling do início, em Cinecittà, é de cortar o fôlego. O título vem daí, La Mèprise?

A associação se faz naturalmente, mas tenho a impressão de que temos tendência a desprezar Brigitte porque se tornou uma velha excêntrica. Eu diria – uma velha dama indigna. Vive isolada com seus animais. Para mim, e era isso que queria entender e mostrar, é uma figura trágica. Uma tragedienne. Uma mulher que abandona tudo, que se recusa a viver seu destino imposto pela sociedade, mesmo que seja a sociedade do entretenimento. Isso é uma tragédia grega, uma tragédia de Racine, convenhamos.

Você talvez romantize. Nos últimos anos, o desprezo não é pela dama que defende os animais, mas pela que apoia a extrema-direita na França. Digo algum absurdo?

Não, mas se você viu o filme sabe que essa Brigitte não me interessa. O filme é habitado pelo fantasma da Brigitte libertária, e foi essa que escolhi filmar.

O fantasma, justamente. A própria Brigitte é a grande ausente de seu filme. Conte como conseguiu convencê-la?

Já havia tentado antes, não sei se você sabe, mas a partir do comprometimento de Arté as coisas começaram a andar. Ela fez apenas uma exigência, e me disse que estava me dando um presente. Sua única condição era não aparecer. Ela abriu suas casas míticas em La Madrague, por exemplo, e me franqueou as centenas de horas de filmes domésticos que seu pai fez desde que ela era bebê, muito antes de virar BB. E eu tinha os filmes que esculpiram sua imagem. Eu já queria fazer um documentário sobre ela, mas sem Brigitte. Isso facilitou muito as coisas. A par de toda a parte iconográfica, tenho dois recitativos, dois textos. Um é feito de minhas reflexões, até de minhas obsessões por e sobre ela. O outro são textos da própria Brigitte em seu livro autobiográfico, e que são lidos por Bulle Ogier.

Brigitte, la méprise, c’est Brigitte, la tragedienne. A desprezada, é Brigitte, a trágica. Fale um pouco sobre essa figura em que ela se converteu?

Mas Brigitte sempre foi trágica. Do que tratam as tragédias? De relações familiares. E Brigitte, que desde criança foi sempre ligada aos animais, desprezou a própria maternidade. Seu filho Nicolas, que teve com Jacques Charrier, foi abandonado por ela. Um pouco como revanche, ao virar adulto, ele foi morar na Escandinávia, longe dessa mãe que o rejeitou. Até nisso ela foi trágica.

Mas no início ela era uma mulher-criança, que assumia sua sexualidade com inocência, quase sem consciência de estar se desnudando, de estar provocando os homens?

Foi o que fez da jovem BB um furacão que assolou o mundo nos anos 1950. As vamps americanas eram fatais. Brigitte parecia infantil, fazendo beicinho. Só que as iniciais BB colaram nela como ferro, e ela fez o que pôde para se desvencilhar.

Conhece o É Tudo Verdade?

Sei da reputação séria do festival, e estou muito contente de que meu filme passe aí. Não gostaria que Bardot – La Méprise fosse visto como obra sensacionalista, porque não é.

É um filme sobre o fantasma, sobre a ausência, como você define. Mas a todo momento temos a impressão de que Brigitte vai romper o isolamento e surgir. Ela aparece, por sinal, fugazmente, meio na sombra, com seus bichos...

Nãããoooo. Não sei de onde todo mundo tira que aquilo é filme. É uma foto. O acordo foi cumprido até o fim porque é o conceito do filme.

Em vez de La Méprise, poderia ser Le Fantôme (O Fantasma) de Brigitte? E o próximo projeto?

No caso de Brigitte, poderia ter feito um filme de entrevistas, porque tem muita gente viva, até ela, mesmo que não esteja interessada em falar. Meu próximo filme será habitado por outro fantasma, o de Antonin Artaud. Preparo, também para Arté, um filme baseado na correspondência de Artaud. Foi um personagem essencial do pensamento, e da consciência, e da contestação no século 20. Às vezes, somos levados a crer que sabemos tudo sobre ele, mas há um Artaud que nos escapa. Vou em busca desse Artaud. Ainda não sei como, mas de alguma forma acho que vai completar La Méprise. Mas preciso fazer, para saber como.

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