Filme entrelaça tragédias da vida real

Se você já leu críticas sobre OFabuloso Destino de Amélie Poulain vai entender que A CidadeEstá Tranqüila é seu inverso. Se o filme de Jean-Pierre Jeunettrabalha no domínio da fantasia, o de Robert Guédiguian mergulhana mais dura realidade. Em palestra que deu em São Paulo,Guédiguiam disse que havia insistido deliberadamente na chaveautêntica da tragédia, na situação sem saída, sem refresco, semilusões.A cidade onde as histórias paralelas se cruzam éMarselha, que aliás nada tem de tranqüila. É a cidade natal dodiretor, ele a conhece muito bem, e não do lado mais favorável.Sempre é discutível vincular uma obra à biografia do autor, maspode também ser arbitrário ignorá-la. Guédiguiam nasceu numbairro operário, ganhou a vida com dificuldade, estudou e nesseparticular foi exceção entre seus amigos. Não tem nenhum motivopara mistificar fatos.E é assim, com estado de espírito amigo do compromissosocial, que Guédiguiam tece as incríveis trajetórias da mãe quese prostitui para arranjar drogas para a filha viciada, dotraficante que a ajuda, do intelectual de esquerda desiludidocom o caminho tomado pelo mundo, do pequeno concertista queprecisa de dinheiro para comprar um piano, do taxista quedesistiu das lutas sociais mas é capaz de cantar a Internacionalem vários idiomas, etc. São várias histórias cruzadas, que searticulam, se complementam, se contradizem. No centro dessa rede, o caso mais pungente, o da mãe, sua filha terminal e o maridodesempregado que culpa os imigrantes pela sua situação.Como você percebeu, trata-se de um cinema de tipos. Sobo sol de Marselha interagem personagens simples que, juntos,formam a complexidade e o desespero de uma cidade grande. Omal-estar contemporâneo, cujas causas são inerentes à espécie,numa visão de direita, ou se devem a motivos sociais, segundo aesquerda.Política - A opção é livre, naturalmente, mas o filmenão é neutro. Há, no interior do drama proposto, toda umameditação política. Inclusive de uma política que não se fazmais, e da qual o taxista, vindo de uma família de esquerda masagora entregue a si mesmo, é o exemplo maior. Ele seria apenasum estereótipo, não fosse o fato de se sentir extremamenteatraído por uma mulher desesperada e fazer do desespero dela, oseu.Enfim, é do entrelaçamento inspirado dessas históriasque emerge a vocação trágica de A Cidade Está Tranqüila.Cada um dos personagens potencializa-se em contato com osoutros. É nos outros, e pelos outros, que se encontram e seperdem. Não são ilhas, como na frase famosa. Apenas um dospersonagens, o intelectual falido, resvala no estereótipo. Comose fosse difícil encontrar um lugar para ele em uma históriacontemporânea. Esse descentramento do intelectual pode serentendido como carência dramatúrgica do filme. Mas pode tambémser encarado como sintoma de que talvez não exista lugar paraele neste mundo moderno.A Cidade Está Tranqüila (La Ville Est Tranquille). Drama. Direção de Robert Guédiguiam. França/2001. Duração: 132 minutos.

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