Filme egípcio coloca vários tabus árabes na tela

Como em todas as sociedades do mundo, os árabes também têm os seus tabus e assuntos que são melhor evitar: sexo, homossexualismo, bebidas alcoólicas, drogas, violência policial, política e religião. Todos estes exemplos estão no filme egípcio Edifício Yacoubian, a produção mais esperada do ano no cinema árabe, que estreou na semana passada aqui na região, depois de já ter levado prêmios em festivais nos Estados Unidos e na Europa.Desafiar convenções sociais e apresentar temas polêmicos não são novidades no cinema egípcio mas em geral isso é feito de maneira muito sutil, em filme aparentemente leves mas cheios de duplos sentidos.As cenas mais ousadas de Edifício Yacoubian são ainda leves para padrões do cinema ocidental - um homossexual deitado de bruços enquanto um homem se aproxima ou um casal andando para cama em roupas íntimas, por exemplo - mas o filme traz para a tela, de maneira bem mais crua do que a habitual, aspectos da sociedade que muita gente preferia que ficassem nas sombras.A recepção inicial da crítica e do público árabes foi muito boa, mas um filme como esse ainda tem potencial para provocar muita reclamação e controvérsia na região, principalmente em países mais conservadores e estritos do que o Egito.Homossexualismo "É um ótimo filme e tem que ser visto por todo mundo porque mostra o que está acontecendo, não só no Egito, mas em todos os países árabes e em todo o mundo", disse um egÍpcio depois de sair de uma sessão do filme num cinema do centro do Cairo.A história se desenrola em torno de um prédio no centro do Cairo - o edifício Yacoubian - com o qual todos os personagens tem alguma relação.O prédio tem de tudo: lojas no térreo, grandes apartamentos ocupados pela velha aristocracia egípcia (falida ou não) e um cortiço no telhado.Um dos personagens que mais chamou a atenção do público foi o jornalista homossexual que tem como amante um policial casado. Embora cenas de contato físico do casal sejam poucas e sutis, raras vezes uma relação homossexual foi apresentada de maneira tão evidente nas telas árabes.O ator egípcio Adel Imam, um dos maiores astros do cinema árabe, interpreta um velho aristocrata mulherengo, que mantém um escritório no Edifício Yacoubian para seus encontros amorosos regados a bebidas alcoólicas.Mas as ousadias do filme - que muita gente pensava que não seria aprovado pela censura no Egito - também entram no campo da política.Política e religião Há o caso do filho do porteiro do Edifício Yacoubian, que presta concurso para realizar o sonho de entrar na polícia, mas, embora tenha ótima pontuação, é reprovado por conta da profissão do pai, considerada das ocupações menos prestigiadas de uma cidade como Cairo.O jovem acaba se voltando para religião e para o ativismo político. Depois de uma manifestação, ele termina preso e torturado pela polícia e entra para um grupo armado islâmico.Enquanto isso, o proprietário de quase todas as lojas no térreo do Edifício Yacoubain compra seu caminho para o Parlamento egípcio e, uma vez deputado, entra em grandes e lucrativas maquinações com um enviado do ?homem? cuja a identidade nunca é revelada.O autor do livro de mesmo nome que deu origem ao filme, Alaa Al Aswany, diz que não escreveu a obra para provocar qualquer mudança social ou provocar alguém."Quando estou escrevendo, minha única intenção é fazer um bom livro" afirma. Autor teve consultório de dentista no prédio O Edifício Yacoubian existe de fato, no Centro do Cairo, e nele Al Aswany teve seu primeiro consultório de dentista. Hoje ele continua exercendo esta segunda profissão - enquanto escreve livros e artigos para jornais e revistas - para "poder se manter um escritor independente".Ele diz que mesmo quando está escrevendo ficção, um autor tem que ser "honesto" quando descreve fatos sociais. "Depois que meu livro foi publicado, aconteceu no Egito o caso famoso de um jovem que se suicidou porque não conseguiu emprego oficialmente pelo Ministério de Relações Exteriores por ´ter origens pobres´", conta o escritor.Mas Al Aswany diz que as histórias e personagens específicos que criou são totalmente fictícios e nem um pouco baseados em fatos reais que tenha presenciado no prédio."Tem pessoas que estão dizendo que este ou aquele personagem é baseado nelas. Nada disso é verdade e eles só estão fazendo isso porque querem dinheiro agora que um filme foi feito", diz ele.O filme Edifício Yacoubian é ousado mas nem um pouco marginal. O orçamento de 20 milhões de libras egípcias (quase R$ 8 milhões) é o mais alto da história do cinema do Egito, é o maior produtor e exportador de cinema do mundo árabe.Edifício Yacoubian está indo - como dezenas de outras produções egípcias todos os anos - para cinemas de todo o Oriente Médio, embora em alguns casos com cortes feitos por censores locais para não provocar demais os conservadores.

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