Filme 'Éden' aborda presença crescente de seitas evangélicas na periferia

Em seu terceiro longa, o diretor Bruno Safadi debate a dialética dos paraísos artificiais

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

15 Maio 2017 | 03h00

Em Éden, seu terceiro longa-metragem, o diretor carioca Bruno Safadi coloca no centro a questão neopentecostal e sua relação com a periferia. Éden é ficção, diga-se, e esta não seria a primeira vez que uma obra de ficção consegue tocar o nervo de um problema enfrentado com pudores e luvas de pelica pelo pensamento social. 

A Igreja Evangélica do Éden é liderada pelo pastor Naldo (João Miguel). É a esta igreja que Wagner (Julio Andrade) leva sua irmã Karine (Leandra Leal) quando esta, grávida de oito meses, fica viúva. O marido, Juninho (André Ramiro), foi assassinado por um rapaz apelidado Vinte Anos (João Pedro Zappa). A mulher de Vinte Anos, Vania (Cristina Lago), também espera bebê. O ambiente onde se passa a história trágica é o da Baixada Fluminense. 

Apoiando-se no trabalho de câmera de Lula Carvalho, Safadi faz um filme sensorial, rente aos personagens. Conta com uma trinca da pesada para encarná-los. Leandra Leal leva sua aflição a um nível agônico. Julio Andrade encarna com tônus a maneira como a religião colhe frutos na fragilidade humana. João Miguel realiza um notável pastor, retórico em seu mix de messianismo e marketing. 

A força do filme está na maneira como expressa esses paradoxos brasileiros em imagens marcantes. Recorre a flashbacks para contar a história e coloca em linha numa progressão angustiante e compacta de tensão. A câmera desenha essa linguagem febril, intensificada pela trilha sonora fragmentada de Guilherme Vaz. Tudo caminha com fluidez, sem qualquer dificuldade artificial para se fingir de “filme de arte”, mas enfrentando a fragmentação real, que é a do ser humano frágil, num mundo de carência e violência, desesperadamente necessitado de quem lhe dê alguma esperança. 

Colocado em meio a essa voragem, Éden não traz qualquer tese pronta. Dispõe-se, sem muitas certezas, a enfrentar um problema que desafia a compreensão de nossas melhores cabeças. Joga com a perplexidade, com a falta de saídas e o com desejo de sentido que nos alimenta. Não propõe soluções. Mas nos deixa entrever, num breve e luminoso plano, o que pode ser o nosso pequeno Éden terreno, palpável e lindo, em contraposição às promessas ilusórias de um hipotético paraíso. 

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