Filme é uma viagem sentimental pelo Afeganistão

Trata-se de uma viagem sentimental - exilado em Paris desde 1985 por conta da turbulência política de seu país, o escritor afegão Atiq Rahimi escreveu o livro Terra e Cinzas, lançado no Brasil pela Estação Liberdade, em que revela uma visão amargurada de seu país - outrora belo, agora sobraram apenas cinzas, depois da guerra civil. Com a possibilidade de finalmente retornar ao Afeganistão, Rahimi decidiu levar a própria história para o cinema. O resultado é o filme que foi exibido no último Festival de Cannes (na mostra Um Certo Olhar) e será mostrado hoje à noite, no Cineclube Directv. É mais um evento da programação do Fórum Cultural Mundial e, por conta disso, contará com a presença do próprio Rahimi. A partir das 18 horas, ele vai ter um encontro com o público e participar de uma sessão de autógrafos - além de Terra e Cinzas, a Estação Liberdade também lançou seu mais recente livro, As Mil Casas do Senhor e do Terror. Depois de um coquetel, Rahimi vai apresentar seu filme às 19 horas e, em seguida, começará a projeção. Terra e Cinzas, o livro, tem a estrutura de um conto: depois do massacre de uma vila afegã pela armada soviética, um ancião, Dastaguir, e seu neto, Yassin, que não escuta mais, partem em busca de Murad, pai do garoto e filho do velho, para relatar as mortes provocadas pelo ataque. Em um passar de tempo raro na literatura mundial, os dois aguardam uma carona para a mina onde Murad trabalha e vislumbram, com amargura, o que sobrou de seu país. "O livro foi meu ajuste de contas com a guerra e uma reflexão sobre a posição do homem diante da morte", contou Rahimi em 2002, quando esteve em São Paulo para a Bienal do Livro, justamente para lançar Terra e Cinzas. Desde que deixou o Afeganistão, o escritor voltou duas vezes clandestinamente ao país. Na primeira, em 1988, acompanhava um jornalista francês e não passou da fronteira com o Paquistão. Na seguinte, dez anos depois, foi como cineasta, desenvolvendo um documentário sobre a reação dos habitantes daquela região diante da televisão, durante a transmissão do jogo entre Estados Unidos e Irã, pela Copa do Mundo da França. Já na condição de diretor de ficção, ele voltou com objetivos bem claros como, por exemplo, dispensar a facilidade oferecida pelas câmeras digitais. "Utilizamos câmeras CinemaScope, que favorecem cenas horizontais e, como rodamos nos ambientes autênticos em que se passa a história, era preciso preservar a horizontalidade espiritual do espaço", explicou ele ao Estado, quando estava no processo de edição do filme. Rahimi levou oito meses cuidando da banda sonora do filme. As cenas foram rodadas na mina de carvão de Kakar, na rota que liga a cidade de Pol-e-khomi à capital, Cabul. O escritor esteve no local em 1981, quando atuava como jornalista, e lá presenciou cenas inesquecíveis, como os trabalhadores descendo até 200 metros abaixo da terra, sem a proteção de capacetes e com os pés nus. Foi movido por essas imagens que ele escreveu o livro, além de utilizar o local como cenário para a versão cinematográfica. Serviço - Terra e Cinzas (Terre et Cendres). drama. Direção de Atiq Rahimi. Hoje, às 19h. Cineclub Directv. Rua August, 20530. tel: 3085-7684. R$ 2 a R$ 4.

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