Filme é tratamento de choque para viciados

Se você é do tipo que acha que AProfessora de Piano, de Michael Haneke, é bom porque incomoda,não pode perder Réquiem para um Sonho. Incômodo e chato não sãocritérios estéticos para avaliação de um filme como obra de arte, embora ultimamente tenham sido utilizados além do bom senso.Como o filme de Darren Aronofsky que estréia amanhã tambémincomoda (e como!) só pode ser bom, por essa cartilha.É, isso sim, o filme que deveria estar na cabeceira ou no vídeode qualquer junkie. Réquiem para um Sonho garante tratamento dechoque para qualquer tipo de drogado. As pessoas vão se curar namarra, aturdidas com o horror que é o mundo mostrado porAronofsky. Aliás, é justamente esse o tema do diretor. Café,chocolate, droga, TV.Os personagens estão todos tentando aliviar seu sofrimentointerno, o vazio que lhes corrói a alma, com a ajuda de algumelemento externo. É punk. Se serve como referência, o público damostra gostou. Réquiem para um Sonho foi um dos 12 filmesselecionados pelo público para concorrer ao troféu BandeiraPaulista.Traumático como é, exagerado nos efeitos para traduzir na telaas viagens dos viciados, o filme se beneficia da participação deEllen Burstyn. É uma rara e grande atriz. Ganhou o Oscar porAlice não Mora mais aqui, de Martin Scorsese, e colheu um grandesucesso pessoal com O Exorcista, o primeiro da série, de WilliamFriedkin. O título de honra de sua filmografia, porém, não énenhum desses, mas o deslumbrante Providence, de Alain Resnais,em que não apenas Ellen, mas também Dirk Bogarde e John Gielgudestão extraordinários. É, com certeza, um, dos filmes mais beminterpretados da história do cinema.Aronofsky ainda era estudante numa escola de 2.º grau doBrooklyn quando topou com o livro de Hubert Selby Jr. Chamou-lhea atenção o título, Last Exit to Brooklyn. Afinal, era ali mesmo no bairro no qual vivia (e estudava). Aronofsky conta que oimpacto sobre ele foi tão devastador que motivou sua decisão:queria contar histórias. Só que, em vez de literatura, resolveufazer cinema. O livro teve outra versão, assinada por Uli Edelnos anos 80. Chamava-se Noites Violentas no Brooklyn. Era menosradical que essa de Aronofsky.Ele conta que realizava o ainda inédito Pi quando lhe veio odesejo, quase um surto, de fazer Réquiem para um Sonhoimediatamente. Emprestou o livro para o produtor Eric Watson,que estava saindo em férias. Ao voltar, Watson lhe disse que olivro havia estragado suas férias. E decidiu fazê-lo. Ébarra-pesada. Começa com Harry Goldfarb, o personagem de Jared Leto, invadindoa casa da mãe para pegar sua televisão. Harry é drogado. Empenhaa velha TV para conseguir o dinheiro necessário para um pico, ouuma carreira. A mãe se tranca no quarto, com medo do própriofilho. Assim é o começo, mas logo não é só o filho que está viajandonas drogas. Nem a namorada dele, a linda Jennifer Connelly, quese degrada e prostitui para também pagar o vício. A própria SaraGoldfarb, personagem de Ellen, é viciada em TV. Assiste,compulsivamente, a um programa do tipo Porta da Esperança. Achaque será chamada. Quando seu desejo parece prestes a se realizar ela decide que vai ao programa com o vestido vermelho que usouna formatura do filho. Só que o vestido não serve mais. Sara vaibater à porta de um charlatão que a enche de comprimidos paraperder o apetite, para manter a energia. Logo, também ela estáviajando na dependência da droga.O filme é uma descida ao inferno da dependência. O diretor nãorecua diante de nada, de nenhum excesso, gráfico ou auditivo,para sacudir o espectador na poltrona. Sua direção é física.Ellen Burstyn é uma grande atriz, mas não é uma bela mulher.Nunca esteve tão feia para passar a "verdade" de sua personagem.Os choques que Sara leva no sanatório vão além dos que Netosofria em Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky, que tambémnão é exatamente um filme leve. Mas há mais. Uma gangrenaseguida de amputação de membro (um braço) que só pode serdefinida como "o horror, o horror".Nos EUA, Aronofsky recebeu críticas pesadas. A maioria dacrítica o acusou de ceder a estilismos e facilidades visuaispara impressionar. Ele não recebeu o desaforo passivamente.Acusou os críticos de quererem só a pasteurização de Hollywood.Ele recusa essa pasteurização mas investe no excesso.Transforma-o na própria razão de ser do seu filme. Excessos deoutra ordem também pesam, por exemplo, em Lavoura Arcaica, queLuiz Fernando Carvalho adaptou do livro de Raduan Nassar. Oexcesso de Aronofsky o aproxima, para desgraça nossa, de Medo eDelírio, o filme que Terry Gilliam adaptou do romance de HunterThompson e que também é outra experiência, pior ainda, noslimites do (in)suportável.

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