Bretz Filmes
Bretz Filmes

Filme é falsa biografia de cientista que viveu 111 anos e não sabia mentir

Em 'Bio – Construindo uma Vida’, Carlos Gerbase trabalha com inteligência a ideia do 'documentário fictício' e situa sua história por volta do ano de 2070; veja trailer

Luiz Zanin Oricchio, O Estado S. Paulo

10 de abril de 2019 | 03h00

No mundo um tanto rotineiro do cinema, de vez em quando surge algum objeto não identificado, o chamado “ponto fora da curva”. É o caso de Bio – Construindo uma Vida, de Carlos Gerbase, que trabalha com inteligência a ideia do “documentário fictício”. A palavra documentário em geral vem associada aos termos da verdade e da realidade. Aqui, ela se vincula à invenção, a uma biografia imaginária. 

É o caso desse personagem que nasce em 1959 e vai morrer apenas 111 anos depois. Como se vê, no futuro pois o filme abre uma fronteira a mais e se instala no campo da ficção científica, trabalhando com algo que se passa por volta de 2070. 

Ao longo do filme, composto por depoimentos, ficamos sabendo algumas coisas e outras ignoramos. O nome do personagem permanece oculto. Por outro lado, conhecemos algumas de suas características, a mais notável sendo a impossibilidade de mentir. A outra, a de ser um pesquisador de babuínos depois engajado em aventura espacial. 

A vida desse escravo da verdade é reconstruída através de entrevistas com pessoas que o conheceram – ex-mulheres, colegas, filhos, netos, etc. São 13 quadros, interpretados por 39 atores e atrizes.

Quando o filme participou do Festival de Gramado de 2017, observei que era com certa dificuldade que se entrava na história, mas, uma vez imerso no universo ficcional, o espectador de boa vontade consentia ser carregado em uma aventura narrativa das mais envolventes. Alguns dos depoentes são interpretados por Tainá Müller, Maria Fernanda Cândido, Maitê Proença e Marco Ricca, entre outros. 

Mas não é apenas a beleza das atrizes e da fotografia na tela que fortalecem o filme e sim a fluidez de uma narrativa que não tem medo de inventar-se a cada passo.

Há alguns poréns. Talvez o principal o excesso de personagens a exigir atenção constante do espectador, que pode se confundir também com a original montagem do longa. É filme para ser visto e revisto mais de uma vez, utopia em época de massacrante overdose audiovisual. Mal vemos a obra uma vez, quanto mais duas ou três.

Nesse contexto de rápida reposição cultural, talvez Bio não encontre seu devido lugar e atenção. No Festival de Gramado foi bem. Ganhou o prêmio do público e um Prêmio Especial do Júri. Veremos como se comporta no circuito comercial, em geral implacável com produções que exigem um pouco de esforço do espectador. Este está cada vez mais preguiçoso e acomodado ao que já conhece. Estacionou na zona de conforto e raramente se dispõe a conferir o mundo existente fora da bolha dos blockbusters hollywoodianos. 

Quaisquer que sejam seus problemas, Bio situa-se numa faixa de originalidade que deveria merecer mais atenção. Se alguma referência é necessária, talvez ele deva alguma coisa a Zelig, também uma biografia imaginária que muita gente boa considera a obra-prima de Woody Allen. Ou a Trópico, a inventiva intervenção biográfica de Arthur Omar

Gerbase, também professor universitário, fez parte daquela criativa geração da Casa de Cinema, um grupo de amigos que revolucionou o cinema gaúcho e substituiu a bombacha, o poncho e o chimarrão pela atmosfera urbana e civilizada de Porto Alegre. A busca pela originalidade narrativa é uma das melhores características desse grupo. 

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.