Filme do diretor Roberto Rosselini é resgatado em DVD

De Crápula a Herói, filme dirigido por Roberto Rossellini na década de 60, está sendo lançado, melhor seria dizer, resgatado em DVD pela Versátil, com o cuidado característico da distribuidora. A Versátil e a Aurora são hoje as duas principais distribuidoras de DVDs de filmes de arte no País e a outra também possui novidades preciosas que está anexando ao seu catálogo. Mas De Crápula a Herói é especial.Por volta de 1960, o neo-realismo já estava esgotado, historicamente, quando dois gigantes do movimento que havia irrompido no cinema italiano, após a 2.ª Guerra Mundial, tentaram uma impossível marcha a ré. Roberto Rossellini e Vittorio De Sica voltaram aos temas da resistência e da guerra, em filmes como De Crápula a Herói e Duas Mulheres, e o segundo ainda propôs a retomada social do desemprego e da falta de moradia em O Teto. De Crápula a Herói foi premiado, em Veneza e São Francisco, sendo saudado, na época, como o renascimento de Rossellini. Não foi - e o grande diretor, em seguida, descobriu na televisão um território importante para novas experimentações estéticas e morais. De Crápula a Herói, mesmo assim, é notável. O que faz a diferença é De Sica, no seu melhor trabalho como ator.Tão decisiva foi a contribuição de De Sica ao neo-realismo, como diretor de clássicos como Ladrões de Bicicletas, Umberto D e Milagre em Milão, já na diversificação do movimento, que muita gente nem se lembra que ele começou como ator, disputando com Amedeo Nazzari o título de galã mais famoso do cinema italiano durante o fascismo.Nos anos 1950, encarnando o mareschiallo da série Pão, Amor e..., ele virou a representação do italiano para o público de todo o mundo colonizado por Hollywood. Foi então que Rossellini lhe propôs o papel do general Della Rovere em De Crápula a Herói e De Sica, para viabilizar a produção, aceitou trabalhar de graça. Foi uma das mais sábias decisões de sua carreira. Seria um filme que ele próprio talvez tivesse gostado de realizar (e tentou, alguns anos depois, em O Seqüestrado de Altona, adaptado de Jean-Paul Sartre).Há vários motivos para se amar Rossellini, mesmo que certos filmes-chaves, o próprio Roma, Cidade Aberta, tenham envelhecido e hoje pareçam peças de museu. François Truffaut amava Rossellini pela simbiose entre arte e vida - o mestre teve diversas fases em sua carreira e algumas delas foram marcadas pelo amor das mulheres, Anna Magnani, Ingrid Bergman, Sonali Das Gupta, pelo menos até que ele descobrisse o amor maior, pela TV, vendo nela um instrumento não para transmitir mensagens, mas para criar ficções dramáticas no estilo de reportagens históricas, que acumulavam informações cujo objetivo último era deixar o espectador livre para julgar.

Agencia Estado,

02 de fevereiro de 2006 | 12h04

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