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Filme do chileno Patricio Guzmán vai das origens do Cosmo aos crimes da ditadura

Documentário estreia nesta quinta-feira, 26, no Brasil

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

03 de fevereiro de 2015 | 03h00

 Nostalgia da Luz. Que belo título. Evoca, antes de mais nada, a obsessão de Patricio Guzmán com o Cosmo, a observação dos astros, a meditação sobre o universo, sua grandeza e eternidade diante da nossa finitude, nossa pequenez, habitantes de um planeta pequenino, orbitando em torno a um sol não dos mais brilhantes, parte de uma galáxia secundária. E, nesse sentido, o filme começa com imagens de um telescópio, voz off do diretor, evocando esses assuntos da física, ou melhor, da metafísica. 

Guzmán evoca o deserto do Atacama, situado em seu país, o Chile. É um posto muito particular no planeta, que tem atraído turistas e até filmagens de blockbusters. Sua atmosfera é tão pura que nele se instalam observatórios astronômicos para pesquisa de ponta. Lá, as estrelas brilham mais, as galáxias distantes são mais visíveis e acessíveis, e entregam parte do seu segredo aos cientistas. Mas o deserto tem outra propriedade, que não o torna menos singular. Lá, o clima é tão seco que conserva restos mortais por longo tempo. 

Então, o deserto do Atacama possui essas duas singularidades. Pela transparência de sua atmosfera, permite observar as galáxias distantes, o que significa dizer, possibilita estudar o passado do universo. Por outro lado, por conservar tão bem os restos mortais, permite prospectar algo muito menos brilhante e menos recuado no tempo do que o Big-bang – os rastos dos crimes cometidos pela ditadura militar do Chile. Em Atacama, os sentidos cósmico e histórico cruzam seus caminhos. E é desse cruzamento que nasce esse notável documentário chamado Nostalgia da Luz.

Ele tira sua força tanto dos pesquisadores que rastreiam as origens do universo a partir dos rastros de luz detectados por seus instrumentos, quanto pela busca tenaz, obsessiva e comovente de pessoas que procuram pelos restos dos seus entes queridos, “desaparecidos” durante a ditadura. Então ficamos sabendo que esse templo da astronomia era também utilizado como cemitério clandestino para as vítimas dos militares durante a ditadura Pinochet. 

O infinitamente grande é colocado contra o infinitamente pequeno. A busca da inteligência humana por suas origens se coloca em contraste com os crimes políticos cometidos contra adversários. O melhor e o pior. A grandeza da ciência contra a mesquinhez da barbárie. É bastante impressionante como o filme nos conduz de uma dimensão a outra, por intermédio de um deslocamento imperceptível e sutil. Num momento estamos maravilhados e, no outro, horrorizados. E, no seguinte, maravilhados de novo com a grandeza daqueles que buscam uma lasca de osso de alguém que foi seu companheiro, para comprovar o crime contra a humanidade cometido. 

Guzman é, provavelmente, um dos grandes documentaristas do nosso tempo. Não por acaso, tem dois dos seus filmes entre uma seleta lista dos 50 maiores documentários de todos os tempos, organizados pelo British Film Institute – Batalha do Chile e este Nostalgia da Luz. Não seria exagero chamá-los de obras-primas. 

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