Filme discute obsessão pelo sucesso

Leon Cakoff até hoje não seconforma. No ano passado, o organizador da Mostra Internacional de Cinema São Paulo trouxe à cidade o diretor belga Dominique Deruddere, com o filme Fama para Todos!. Deruddere, umilustre desconhecido, ficou por aí, flanando. Passeou naPaulista, mofou no hall do hotel à espera de jornalistas que nãoapareciam para entrevistá-lo. De nada adiantava Cakoff dizer queo filme era bom, que o diretor ainda seria reconhecido, comoQuentin Tarantino, que também era quase anônimo quando veio aquipela primeira vez, com Cães de Aluguel. Não deu outra.Deruddere virou uma celebridade quando Fama para Todos! foiselecionado para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeirodeste ano. Só não ganhou porque era o ano de O Tigre e oDragão e nunca houve uma vitória tão anunciada quanto a doépico romântico de Ang Lee. O importante é que Fama paraTodos! estréia nesta sexta-feira, numa distribuição da Mais Filmes,de Cakoff e Adhemar de Oliveira.Pode ser que o filme não seja ótimo, mas é bom, comcerteza. Mistura elementos de Quase Famosos, de CameronCrowe, de Celebridade, de Woody Allen, de Laura, a Voz deuma Estrela, de Mark Herman, e até de Um Dia de Cão, deSidney Lumet, mas o faz de maneira a compor uma trama engenhosae original. Deruddere não era um estreante. Havia feito um filmede impacto, Aconteceu na Suíte 16, que virou cult naslocadoras. Aqui, muda o tom, o estilo, mas continua interessadoem mostrar aspectos nada lisonjeiros da competitiva sociedadeatual.Fama para Todos! conta a história de uma relaçãofamiliar. É centrado em pai e filha, mas trata menos da relaçãoíntima entre os dois do que da relação pública de ambos com omundo.O pai é um operário cujo sonho é ver a filha virarestrela da música pop na Bélgica. Ela se chama Marva e, aos 17anos, é sempre ridicularizada em concursos de novos talentos.Tenta tudo, até imitar Madonna, que é uma estrela mas não éexatamente uma grande cantora, sem nunca conseguir boas notasdos jurados. Marva sonha com seus 15 minutos de fama na TV.Enquanto não é descoberta, come compulsivamente e acompanha adistância a meteórica ascensão da nova estrela da música belga,uma garota chamada Debbie. Seu pai resolve agir. Desempregado eapostando todas as fichas no sucesso da filha, ele seqüestra acantora e exige, como resgate, a produção de um CD da filha. Ocaso vira espetáculo televisivo, com todo o sensacionalismo aoqual o espectador brasileiro está acostumado.Deruddere fez seu filme com o objetivo declarado decriticar a obsessão das pessoas pela fama num mundo consumista e, no outro pólo, movido pelo desejo de refletir sobre aperversidade desse mundo tão ilusório e descartável que é o daTV, em que o sucesso de hoje tende a ser esquecido amanhã. EmHollywood, numa das entrevistas que deu durante a campanha doOscar, ele lembrou o tempo, não tão distante assim, em que a TVnão era tão influente na vida das pessoas. Naquela época (napré-história da vertiginosa era da comunicação de massas), erapouco provável que um jovem recebesse apoio da família para serartista. Ele próprio era motivo de riso em casa quando dizia quequeria ser diretor de filmes.Essa atitude, ele reconhece hoje,era errada, mas os valores se modificaram tanto que agora ocorreo inverso: alguns pais fazem de tudo para pôr os filmes na TV. Enão só os pais. As pessoas, de maneira geral, querem colocar acara na telinha, mesmo que para isso tenham de se submeter aosmaiores vexames, como ocorre na maioria desses programas queexploram a intimidade alheia, estimulando um voyeurismoconstrangedor e ridículo.O diretor acha triste que a máquina funcione desse jeito, mas faz uma distinção entre o que lhe parece a ingenuidade daspessoas, tipo Marva e seu pai, e o maquiavelismo de quem tem opoder. O homem da TV, o produtor e o empresário, há neles umaânsia de manipulação que poderia levar o filme para omaniqueísmo e até para o exagero. Recorrendo ao humor, Deruddereencontra o canal certo para a sua ferocidade. O filme édivertido e inteligente. E engenhoso, nas sucessivasreviravoltas que marcam o roteiro escrito pelo próprio diretor.Não seria tão bom sem os atores certos nos papéis. Josse De Pauwfaz o pai, Eva Van der Gucht é Marva. Ela foi escolhida entrecentenas de candidatas. Dureddere queria uma atriz que fossejovem, soubesse cantar e fosse gordinha e desajeitada. Eva étudo isso e mais: talentosa. É a alma de Fama para Todos!Serviço Fama para Todos! (Everybody Famous!). Drama. Direção deDominique Deruddere. Bél-Hol-Fr/2000. Duração: 97 minutos. 12 anos.

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