Filme discute a América como terra prometida

Vozes Inocentes, que estréia hoje, assim como Maria Cheia de Graça, de Joshua Marston, discute, entre outras coisas, a relação da América Latina com os EUA, a América, como terra prometida. Não deixa de ser também o tema embutido em América, a novela de Glória Perez, que ocupa o espaço das nove, na Globo. Numa conversa por telefone, de Los Angeles, Oscar Torres, roteirista de Vozes, diz que nada do que aparece no filme que escreveu, sobre suas experiências pessoais, de menino, na guerra civil de El Salvador, é fictício. Ele conta que a mãe e os três irmãos eram contra remexer nas feridas do passado. A família reconstruiu a vida nos EUA. Todos queriam esquecer a dor e o sofrimento dos anos em El Salvador. Oscar Torres foi em frente. Sentia que precisava exorcizar aquele fantasma que nunca deixou de rondar sua vida. De comum acordo com o diretor Luís Mandoki, reservou-se um pequeno papel. É ele quem faz o pai que, no começo, abandona a família, afastando-se sob a chuva. "Foi como um acerto de contas para mim", confessa. Ao contar a dura experiência de um garoto em El Salvador, colhido na violência da guerra entre o Exército, treinado pelos norte-americanos, e a guerrilha, Oscar Torres muitas vezes se perguntava se estava sendo verdadeiro ou se fantasiava. A memória é traiçoeira, ele sabe. Emocionou-se ao voltar a El Salvador para mostrar lá o filme de Mandoki. "As pessoas me procuravam para dizer que havia sido exatamente daquele jeito." A mãe e os irmãos também foram cooptados. "Minha mãe chorou muito ao ver-se retratada na tela por Leonor Varela. É uma grande atriz latino-americana." No fim, um letreiro informa que Chava, o personagem autobiográfico de Oscar Torres foi para os EUA e, seis anos mais tarde, conseguiu reunir-se à mãe e aos irmãos. "Encontrei condições que me foram favoráveis, pessoalmente, a mim e a meus familiares, mas não sou nem quero ser um norte-americano. Como muitas pessoas que vivem no exílio, eu sonho com a minha terra. Minhas raízes continuam em El Salvador." Sua intenção, ao escrever o roteiro, era outra, "Acho que os EUA deveriam rever suas relações com a América Latina. Gostaria de contribuir para isso. Nossos países muitas vezes vivem em condições precárias por causa da hegemonia norte-americana. Não me adianta viver bem, aqui. Todos deveríamos ter condições de levar uma vida decente na nossa terra de origem."

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