Olhar Distribuição
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Filme ‘Dias Vazios’ fala de uma juventude angustiada e sem perspectivas

Baseado em romance de André de Leones, drama de Robney Bruno Almeida, em cartaz no Brasil, mostra o tédio de jovens em cidade do interior de Goiás; veja o trailer

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

06 de junho de 2019 | 03h00

Nas primeiras cenas de Dias Vazios, de Robney Bruno Almeida, vemos uma sala de aula quase sem alunos. Nela, apenas Daniel (Arthur Ávila) folheia um caderno e conversa com a namorada, Alanis (Natália Dantas). Os planos são fixos, as cores desmaiadas, o ambiente asséptico. Mostra o tédio dos jovens de Silvânia, interior de Goiás. Velhos gostam de cidades pequenas porque nada acontece e o tempo custa a passar. Jovens as detestam pelos mesmos motivos. 

Daniel mantém o ar de perene aborrecimento, mas talvez seja influenciado por um processo de identificação. O caderno que ele leva para cá e para lá contém o esboço de um romance que está escrevendo e tem como protagonista outro casal da cidade – Jean (Vinícius Queiroz) e Fabiana (Nayara Tavares). Eles se amavam e o amor não deu muito certo. Fabiana sumiu. E Daniel escreve seu livro para tentar descobrir o que aconteceu com a moça, e também com o rapaz. 

Há um exercício de metalinguagem aí, um relato dentro de outro relato. Daniel investiga um casal e, ao mesmo tempo, reproduz, com a namorada, situações vividas pelos outros. Dá-se, então, uma circularidade da narrativa, com o espectador dividido entre o que “de fato” aconteceu e a descrição romanesca de Daniel.

Trata-se de um artifício narrativo nesse filme adaptado do romance Hoje Está um Dia Morto, de André de Leones (2005). Essas idas e vindas entre os dois planos não impedem que o espectador entre na história e nela permaneça. Caso aceite o jogo, será premiado com certo adicional de estranheza que pode tornar a narrativa ainda mais atraente.

A maior parte da trama se desenvolve em torno dos dois casais jovens. E da freira interpretada por Carla Ribas, atriz notável. Ela é diretora do colégio e se empenha em aconselhar os alunos através de conversas. Os diálogos entre freira e alunos são pontuadas por silêncios, impasses e certa agressividade. Como se, de fato, não funcionassem e o abismo de gerações fosse outro fator a agravar as condições de uma juventude realmente em falta de utopias que dessem sentido às suas vidas. O tom é de mal-estar absoluto

 

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