Filme desperdiça tema do levante de 35

Foi injusta com o documentário 35 - Assalto ao Poder, lançado na Mostra de Cinema de São Paulo, matéria publicada recentemente no Caderno 2. O texto afirma que o filme, dirigido por Eduardo Escorel, "derrubou mitos" em torno do levante comunista dirigido por Luis Carlos Prestes. É exatamente o que o documentário não fez. Tímido na abordagem e hesitante na análise, 35 - Assalto ao Poder desperdiçou sobretudo a oportunidade de contar pelo lado humano um episódio tão traumático (afinal, foi a primeira vez que a esquerda brasileira pegou em armas para mudar o País).Material para isso existe. Com a queda do Muro de Berlim, a moderna pesquisa histórica, aquela que tenta responder perguntas e não aquela, bastante difundida aqui, que parte de respostas prontas, deu um enorme salto qualitativo no tratamento de capítulos como o do Komintern (a Internacional Comunista), do qual é parte a empreitada de Prestes. O fim dos regimes comunistas na Europa e, particularmente, a implosão da ex-URSS, abriram arquivos dos quais antes sequer se sabia da existência.O Estadão foi um dos órgãos da imprensa mundial beneficiados pela extraordinária janela de oportunidade aberta em Moscou no período de 1991 a 1993. A pesquisa em arquivos soviéticos do período de 1917 a 1943, enriquecida ainda na Alemanha, Grã-Bretanha, Estados Unidos e Argentina e Brasil, tornou possível contar a história até então secreta do levante de Prestes em 1935. Esse trabalho deu ao jornal o mais importante prêmio de imprensa no Brasil, o Esso de Jornalismo de 1993. Não fora a primeira vez que órgãos de imprensa escreveram ou reescreveram trechos da história brasileira, causando não só surpresa, mas, sobretudo, consternação em historiadores mais preocupados em defender reputações acadêmicas do que reexaminar fatos à luz de novo material.Muito mais do que mostrar como a insurreição de 35 foi planejada, preparada, financiada, controlada e dirigida pelo Komintern, os arquivos em Moscou revelaram e permitiram um raro mergulho na forma e motivação da ação de dezenas de seus personagens, brasileiros e estrangeiros, muitos deles desconhecidos durante 60 anos. A delação mútua, hábito bastante cultivado pelos militantes do Komintern, deixou um legado de minuciosos relatos de próprio punho sobre o levante. Combinados com os documentos oficiais, como as comunicações secretas entre Rio e Moscou, compõe um quadro fascinante e riquíssimo sobretudo em sua dimensão humana. O levante de 1935 é uma exemplar história de abnegação e dedicação, mas também de traição, covardia, cegueira, ignorância, cinismo e incompetência. 35 - Assalto ao Poder fica bem aquém dessa dimensão, além de fraco ao tentar elaborar o contexto internacional do levante.Os historiadores ainda debaterão se a causa principal do fracasso do levante de 35 foi só a inequívoca submissão de Prestes aos chefes em Moscou, que do Brasil (e não só) não tinham o menor conhecimento. Ou se foi a notória incapacidade de o maior líder comunista brasileiro de todos os tempos avaliar correlações de forças e situações objetivas. Ou se foi a própria personalidade de um homem embevecido de si mesmo, confiante em excesso em suas (injustificadas) qualidades como comandante militar. Arrisco dizer que foi uma combinação de tudo isso. Existem, porém, perguntas em aberto, e uma das principais se refere à canina lealdade de Prestes a Moscou, submisso até o fim, enquanto tantos outros homens e mulheres de comando, talento, cultura, sensibilidade e projeção no século 20 tiveram a coragem de romper os elos. Por que, por exemplo, Prestes mentiu sobre 35 até morrer?As respostas talvez estejam num arquivo conhecido em Moscou como "arquivo do presidente", que permanece fechado e sem previsão para ser aberto. Ali estão todos os dados, incluindo os da polícia política e serviço secreto soviéticos, sobre ex-secretários gerais de PCs (Prestes foi um deles), de qualquer época e lugar. Sempre se disse em Moscou que o material é explosivo, não só para os nomes dos ali fichados. Provavelmente será nocivo também para a reputação de quem se contenta com as versões oficiais, e se dedica à História com respostas prontas.

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