Filme denuncia escravidão de brasileiros na Guiana

Se por acaso colocar os pés de novo na Guiana Francesa, odocumentarista francês Phillippe Lafaix corre o risco de voltar mortopara seu país. Ele é autor de La Loi de la Jungle (A Lei da Selva),documentário em vídeo que é um dos destaques do 6.° FestivalInternacional de Cinema e Vídeo Ambiental, que acontece na cidadehistórica de Goiás, distante 128 km de Goiânia. Em 53 sucintos minutos,Lafaix tanto denuncia a escravidão sofrida por trabalhadores brasileirosna Guiana como mostra o efeito danoso à natureza e aos índios provocadopela emissão exagerada de mercúrio nas águas dos rios. Tudo sob osilêncio do governo francês, responsável pela Guiana, que ainda é um deseus departamentos.A ameaça de morte partiu de Jean Béna, líder do poder paralelo quecontrola o trabalho escravo na região e que instala novos pontos degarimpo sem nenhuma preocupação com o meio-ambiente. "Ele determina osdireitos e deveres de cada um na Guiana", conta Lafaix, que nãoconseguiu autorização para entrevistar Toná. "Assim, o ambiente é sempretenso na Guiana; não consegui relaxar em nenhum minuto."Lafaix viajou três vezes para a região em 2002, totalizando o período deum ano. Lá, conversou com trabalhadores brasileiros, que revelaramdetalhes chocantes de tortura. "Os brasileiros são bem aceitos pois sãoos únicos dispostos a garimpar, uma vez que os criollos locais não sedispõem a esse tipo de trabalho." Assim, levas de voluntários cruzamilegalmente a fronteira em busca de um salário que, quando é pago, éínfimo. E os revoltosos são punidos exemplarmente - um dos entrevistadosdetalha, por exemplo, como foi violentamente espancado até ser deixado,nu e a sol aberto, sem que lhe fosse permitido fornecer água. Um dos sobreviventes das agressões conversou com o senador Gilvam Lopes, do Amapá, que enviou uma carta ao presidente francês Jacques Chirac denunciando o trabalho escravo. Não houve resposta.A violência é um fato cotidiano, que Lafaix revela tanto ao exibir asarmas que todo homem carrega (as mulheres preferem facas) como nos atostruculentos que surgem mesmo nos momentos mais amenos. Como em um bailefrequentado por brasileiros, em que uma mulher é inesperadamenteesfaqueada.Já o garimpo descontrolado, tanto desmata predatoriamente a Amazônia,como permite a liberação de alta dose de mercúrio (12 toneladas ao ano),metal que facilita a descoberta de ouro, que brilha em seu contato. OsWayanas, índios que vivem em reservas demarcadas pelo governo francês apartir da Rio-92, são as principais vítimas, pois é impossíveldetectar, a olho nu, os peixes contaminados. "O que era para ser umparaíso transforma-se em uma região rodeada de problemas", conta Lafaix,que consultou cientistas franceses para comprovar os danos progressivosprovocados na Guiana. "O que se passa lá é trágico."Apesar do teor da denúncia, La Loi de la Jungle foi recebido friamentepelas emissoras de televisão francesa, que se recusaram a exibi-loalegando que não se encaixa no estilo de sua programação. "Também oscinemas evitaram programar o filme", conta Lafaix, que contou apenas como apoio da imprensa escrita. "Assim, sinto-me feliz quando encontroespaços, como aqui em Goiás, para exibir o trabalho."

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