Filme de Thomas Anderson empolga Cannes

Não foi a torrente de aplausos de Bowling for Columbine, o admirável documentário de Michael Moore que integra a competição, mas Punch-Drunk Love, de Paul Thomas Anderson, o segundo filme mais aplaudido nas sessões de imprensa do 55.º Festival International du Film. Em compensação, um silêncio de morte seguiu-se à projeção de Ten, o novo Abbas Kiarostami, e o francês Demonlover, de Olivier Assayas, recebeu a maior vaia deste festival, até agora. Os críticos começam a perguntar-se sobre o que é, afinal de contas, o cinema? É uma arma para Michael Moore, uma fonte de aborrecimento para Olivier Assayas. E para Abbas Kiarostami, o magnífico diretor de alguns dos melhores filmes feitos no Irã e no cinema mundial, nos últimos anos? É um instrumento do humanismo, com certeza. Mas a questão primeira é: será Ten cinema?Kiarostami volta ao carro de O Gosto da Cereja. Seu novo filme nunca sai lá de dentro. É feito em digital, por meio de longos planos-seqüência. O primeiro põe a câmera diretamente em cima de um menino que discute com a mãe, a motorista. É o único episódio no qual Kiarostami introduz dois ou três cortes, talvez porque seja mais difícil construir a cena - quase 15 minutos - com o garoto. Ele briga com a mãe, acusa-a de egoísmo, de querer colocá-lo contra seu pai e fazê-lo aceitar incondicionalmente o novo companheiro dela, seu padrasto. Os demais planos contínuos (episódios?) mostram um verdadeiro entra-e-sai de mulheres do carro. O dez do título refere-se ao número dessas intervenções. Nada do que essas mulheres dizem é irrelevante. Elas falam sobre a condição da mulher no país, sobre o sistema patriarcal que as inferioriza e das armas de que dispõem para criar seu espaço nesse universo.Há revelações surpreendentes sobre aborto numa sociedade religiosa. E sobre o sexo que faz do casamento uma prostituição legalizada, na qual as mulheres cedem aos maridos para obter vantagens. Tudo isso é impressionante, mas não há, usemos a palavra, uma verdadeira dramaturgia em Ten. Não há conflito, apenas blocos de diálogos ordenados cronologicamente. A única novidade desse filme termina sendo o menino, prodigioso, e o que ele revela sobre a ruptura da família na sociedade iraniana.Ten concorre à Palma de Ouro. É difícil acreditar que o júri presidido por David Lynch possa atribuir-lhe o prêmio maior do festival. Punch-Drunk Love tem mais chance, embora sonhar com a palma pareça excessivo para Paul Thomas Anderson. Na coletiva, o diretor explicou que depois de Magnólia, um filme trabalhoso de fazer, quis lançar-se a um projeto mais leve. Encontrou-o num artigo de revista (Time) sobre um sujeito que comprou toneladas de pudim para adquirir as milhas a que cupons anexados nos produtos davam direito.Esse cara passou a ser conhecido como "Mr. Pudim" pelas companhias aéreas. No filme, isso é só o começo. Aliás, justamente o começo. Anderson terminava Magnólia de maneira insólita, com aquela chuva de sapos. Aqui, começa o filme de maneira igualmente estranha, com dois acontecimentos sucessivos que é melhor não revelar para não tirar a graça. O homem dos pudins, lá pelas tantas, recorre a um serviço de sexo por telefone. Entra numa roubada. É um solitário que tem sete irmãs e elas infernizam a vida dele. Por meio de uma delas, conhece uma mulher, por quem se apaixona, mas a essa altura sua vida já virou um pesadelo. Se há um filme parecido com esse é Depois de Horas, de Martin Scorsese, que ganhou aqui o prêmio de direção, nos anos 1980.Punch-Drunk Love é um Depois de Horas menos angustiante, mas igualmente rico como possibilidade de leitura e reflexão sobre a sociedade americana. E o filme de Anderson revela o potencial dramático de um ator até aqui só conhecido por seus papéis em comédias. Adam Sandler, de O Paizão, talvez siga os passos de Jim Carrey, mostrando que também é um poderoso ator dramático.Não há nada para se dizer de bom do segundo representante francês na competição. Demonlover foi precedido por Marie-Jo et Ses Deux Amours, de Robert Guédiguian, que possui algumas qualidades, mas decepcionou, especialmente por seu final. Do autor de A Cidade Está Tranqüila esperava-se mais, realmente. Olivier Assayas é crítico. Queridinho dos Cahiers du Cinéma, cujo corpo de redação integrava (integra?), veio a Cannes com um thriller que trata de pornografia na Internet. O filme, percebe-se no fim, monta seu jogo de pistas falsas e revelações impactantes para criar o que, na cabeça do diretor, devia ser um videogame. Mas a história da executiva que arma um monte de jogadas (e comete assassinatos) para repassar à concorrente os segredos da empresa na qual trabalha é, até aqui, o pior filme do festival.

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