Filme de terror põe a América de Bush no espelho

Já tem gente arrancando os cabelos. A seleção do Festival de Cannes deste ano, divulgada na quarta-feira, promete uma disputa acirrada pela Palma de Ouro. A seleção está muito interessante, com autores importantes, mas, de repente, encontra-se entre eles, fora de concurso, um filme como Madrugada dos Mortos. Um trash de luxo, feito com cor e muitos efeitos. Só pode ser influência do presidente do júri, Quentin Tarantino. Talvez não seja. Embora seja difícil definir o terror de Zack Snyder como obra de arte, Madrugada dos Mortos é fascinante pelo que revela sobre a sociedade americana atual.Madrugada dos Mortos estréia hoje em todo o Brasil. Desobrigue-se de gostar (ou não) e veja o filme como uma experiência de fundo sociológico. Ou psicológico, que seja, já que as chaves de Freud, aplicadas ao trabalho de Snyder, desvendam mundos mais complexos e perturbadores do que muito filme humanista anódino que anda ganhando prêmios por aí. A psicanálise investiga o inconsciente. Um filme como Madrugada dos Mortos trabalha nestas camadas mais subliminares. Se é verdade que filmes costumam ser comparados a sonhos, que os espectadores sonham acordados no escurinho dos cinemas, é bom avisar que o sonho, aqui, vira pesadelo bravo.Vamos logo acrescentando que não é tão aterrador como promete o trailer. Mas Snyder não perde, em termos de impacto, se comparado ao filme que deu origem ao dele. Em 1968, George A. Romero fez o cult A Noite dos Mortos-Vivos. O mundo estava em transe, no mítico 68, e vinha aquele filme sobre os mortos que se levantavam para semear o caos numa comunidade americana. A Noite dos Mortos-Vivos foi encarado como metáfora da crise que os EUA, já atolados no Vietnã, enfrentavam naquele momento e que só iria piorar nos anos seguintes, agravada pelo escândalo de Watergate. A Noite dos Mortos-Vivos virou agora Madrugada dos Mortos e o amanhecer filmado por Zack Snyder não encerra nenhuma promessa de felicidade. A última frase do filme é de um homem que diz que vai dar tudo certo e uma mulher responde que não, que nada mais poderá dar certo e ouve-se um tiro. Não tira a graça contar isto porque você não sabe quem são essas figuras, não conhece o contexto. Só deve ir preparado para o apocalipse, segundo Snyder.Tudo se passa entre dois amanheceres. No primeiro, Ana, interpretada por Sarah Poley, está na cama com o marido quando entra aquela menina que morde o cara e ele morre para ressurgir como um monstro. Isto está ocorrendo ao mesmo tempo em toda parte. Quando não existir mais lugar no inferno, diz o pastor na TV, os mortos caminharão sobre a Terra. O vírus que se transmite pela mordida evoca imediatamente o da aids. E logo tudo passa a ser metafórico. O pequeno grupo que resiste refugia-se num shopping, esse templo do consumo que representa, obviamente, a economia neoliberal e o mundo globalizado.Para defender o assédio dos mortos-vivos, as pessoas se armam até os dentes - Michael Moore já mostrou como funciona a psique do americano médio em Tiros em Columbine. Só que as armas de fogo ou a serra elétrica se voltam contra os que as manipulam e aí se chega ao amanhecer que não traz, em si, nenhuma promessa. É o mundo global de George W. Bush que está em xeque e as bandeiras dos EUA que tremulam em Madrugada dos Mortos nos lembram isto a toda hora. Francamente, Romero, apesar de cult, não era muito melhor. Ou Snyder é que não é pior. Os mortos-vivos são metáforas angustiantes. Lembram-se de um certo incidente em Antares, narrado pelo grande Erico Verissimo? Veja Madrugada dos Mortos. Snyder tem de ter alguma coisa para dizer para estar num grupo tão seleto de diretores como o que vai a Cannes este ano.

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