Filme de Sokurov é o mais sombrio do festival de Berlim

Houve um belo filme francês na quarta-feira à noite, De Battre Mon Coeur C´Est Arreté, de Jacques Audiard, com chances de ser premiado sábado à noite. Mas a discussão de hoje foi dominada por Alexander Sokurov, com o seu Solnze ("Sol"). De um filme com esse título, você espera que pelo menos seja luminoso. Sol é o mais sombrio dos filmes. Passa-se quase todo em interiores opressivos e, até quando nas cenas externas, o que aparece na tela são imagens de destruição, filmadas numa espécie de preto-e-branco em cores. O Sol do título é o imperador do Japão, adorado como uma divindade. E o que o filme narra é esse breve período, no fim da 2.ª Guerra Mundial, em que o imperador japonês é pressionado pelas forças norte-americanas de ocupação para renunciar ao seu status de divindade. O imperador de "Sol", pelo contrário, tem algo de patético. Tem reações que parecem despropositadas, parece uma criança e, na verdade, numa cena, esconde-se como um menino no regaço da mulher, a imperatriz. O filme remete à experiência de "Moloch", sobre os últimos dias de Adolf Hitler. Há uma diferença entre Hitler e o imperador do Japão. Para Sokurov, qual é? Talvez seja, principalmente, a origem. Hitler era um pequeno-burguês que virou um carniceiro no poder. O imperador é um aristocrata e você sabe, desde A Arca Russa, que Sokurov é atraído pela vida pré-revolucionária. "Sol" impressiona - essa longa e lenta elegia fúnebre sobre um sol que se apaga ou um deus reduzido à dimensão humana vai dar o que falar, com certeza.Norte-americanos - Sometimes in Abril. O novo filme de Raoul Peck conta praticamente a mesma história de Hotel Rwanda, de Terry George. O que muda é o ângulo. Até o Hotel Mille Colines, de Hotel Ruanda, vira cenário de parte da narrativa. Don Cheaddle no outro filme, faz um Schindler africano que salva ruandeses, em vez de judeus. Agora, no filme de Peck, não existe um salvador. O filme narra a história de dois irmãos que estiveram em campos opostos nos cem dias que durou o massacre de um milhão de pessoas, na guerra entre hutus e tutsis em Ruanda.A Berlinale, em 2005, já contou muitas histórias de família, de genocídio, de culpa. Às vezes, como no filme francês Les Mots Bleus, de Alain Corneau, o tema foi tratado de forma muito introspectiva, por meio de uma mãe que sofre, mas teme resolver o problema da filha que não fala, porque vê na possibilidade de sucesso ou libertação da garota o oposto do seu fracasso em desembaraçar-se dos próprios fantasmas. Negros contra negros, ruandeses contra ruandeses em Sometimes in Abril. Alemães infligindo sofrimento a alemães em Sophia Scholl, húngaros, mais do que os próprios ocupantes nazistas, explorando e humilhando, finalmente matando, os judeus húngaros de Fateless, de Lajos Koltai. Que mundo é esse, interroga-se a todo o momento o espectador que assiste à competição de Berlim. Os filmes todos se articulam no mesmo discurso. O Prêmio Nobel da Paz, Imre Kertesz, que escreveu o roteiro de Fateless, pôs lenha na fogueira, lamentando a ´revoltante´ ascensão de neonazistas na Alemanha. Há revolta, também, por parte de Raoul Peck em Sometimes in April. Ele cria a personagem da subsecretária de Estado dos EUA (Debra Winger) preocupada em achar uma solução humana para a crise, mas o pequeno país africano não tem importância econômica nem estratégica que justifique a intervenção de Washington. Sua colega no departamento chega a discutir se, tecnicamente, o que houve mesmo foi um genocídio. Quando Debra diz que, moralmente, não só os EUA, mas todo o Ocidente, erraram em Ruanda, não há como negar - Raoul Peck, que é negro e haitiano, é bom esclarecer, fez um filme no mínimo melhor e mais honesto do que o manipulativo e sentimental Hotel Ruanda.

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