Filme de Mel Gibson estréia hoje nos EUA

Raras vezes um filme provocou tanta controvérsia antes de entrar em cartaz. A polêmica em torno de A Paixão de Cristo, uma ensangüentada versão das 12 últimas horas da vida de Jesus que começa a ser exibida hoje em 2 mil salas nos EUA (ao Brasil, chega no mês que vem, antes da Páscoa), é alimentada em parte pela fé religiosa do seu produtor e diretor, o ator australiano Mel Gibson. Católico tradicionalista, Gibson integra a corrente ortodoxa que rejeita as mudanças litúrgicas introduzida pelo Concílio Vaticano II, nos anos 60, como a celebração da missa nas línguas nacionais dos fiéis e a exclusão da oração final em que os católicos do mundo inteiro pediam semanalmente a Deus "pela conversão dos pérfidos judeus". De acordo com as poucas pessoas que assistiram ao filme, o foco da história, adaptada para a tela pelo próprio Gibson, é o papel dos líderes do templo judeu de Jerusalém durante o julgamento e a condenação de Jesus. O sumo sacerdote Caiafás aparece como o principal instigador da morte de Cristo, enquanto o governador romano da Judéia, Pôncio Pilatos, é apresentado como um sujeito simpático que, relutantemente, rende-se ao clamor da turba que pede a crucificação de Jesus. As cenas de violência contra o condenado na Via Dolorosa e no Calvário são tão gráficas que o filme recebeu a classificação R, de restrito para menores de 17 anos. "Eu queria fazer um filme chocante, extremo, que mexesse com o espectador e o filme tem esse efeito sobre as pessoas, de fazê-las ver a enormidade do sacrifício (de Jesus), ver que alguém tenha suportado aquilo e, ainda assim, responder com amor e perdão à dor extrema, ao sacrifício e ao ridículo", disse ele, na semana passada, numa entrevista ao programa Primetime, da rede ABC, que atraiu 17,5 milhões de espectadores. (O recorde continua a ser a audiência de 45 milhões pessoas que assistiram à entrevista de Mônica Lewinsky, a ex-namorada do presidente Bill Clinton, também à rede ABC, seguida por uma mais recente, de Michael Jackson à CBS, depois que ele foi acusado de molestar sexualmente menores.) A mensagem da Paixão de Gibson encontrou terreno fértil na América de George W. Bush. Dezenas de congregações cristãs conservadoras, não apenas católicas, se mobilizaram para vender bilhetes com antecedência. Em Nova York, Washington, Boston, Chicago e outros grandes centros os ingressos para os primeiros 15 dias estão esgotados desde a semana passada. "Não creio que tenha havido um filme que gerou trocas de acusações tão inflamadas antes de as pessoas o assistirem", disse na semana passada ao Washington Post o reverendo Christopher Leighton, um ministro presbiteriano que dirige o Instituto de Estudos Cristãos e Judaicos em Baltimore. Leighton condenou os meios de comunicação por apresentar o debate sobre o filme de uma forma que aguça o fervor dos cristãos fundamentalistas das igrejas evangélicas e causa temor entre os judeus. A controvérsia, no entanto, faz parte da estratégia de marketing de A Paixão de Cristo, que, segundo alguns analistas, poderá atingir os US$ 30 milhões em bilhetes vendidos na primeira semana, um cifra notável para um filme que custou US$ 25 milhões, que não tem atores consagrados e é falado em latim e aramaico, com um mínimo de subtítulos. Em discussões que teve com as poucas platéias selecionadas para ver o filme antes do lançamento, Gibson afirmou que seu épico sobre as horas finais de Cristo é uma "versão exata" dos fatos tais como eles foram retratados nos quatro evangelhos do Novo Testamento e pelas visões e testemunhos místicos de Maria Agreda, uma freira que viveu no século 17 na Espanha, e Anne Catherine Emmerich, uma religiosa francesa do século 18. Como, no entanto, nenhum dos evangelistas foi contemporâneo dos fatos da vida de Jesus que relataram (exceto o primo, João), suas versões deixam margem para a imaginação. Uma das passagens mais fortes da versão do filme exibida para testar a reação da platéia retoma o tema da responsabilidade dos judeus pela morte de Cristo. Trata-se de uma frase do Evangelho segundo São Mateus, na qual a multidão pede que Jesus seja pregado na cruz gritando: "Seu sangue estará em nós e nos nossos filhos." Gibson refutou todas as acusações de anti-semitismo que lhe foram lançadas nas últimas semanas. O crítico de cinema Harry Knowles, que viu o filme com uma platéia de agnósticos, escreveu que "se você estiver à procura de anti-semitismo no filme, encontrará". Mas ele considerou uma simplificação reduzir a mensagem de A Paixão a um ataque aos judeus como assassinos de Cristo. "A mensagem é sobre um cara que recebe o maior castigo (corporal) que você já viu na vida e como ele não pede vingança e reza pelo perdão aos que o punem. Eu sou um liberal radical e acho que compreendo a mensagem do filme melhor do que os conservadores", afirmou Knowles. Sophie Hoffman, que preside o Conselho das Comunidades Judaicas da área metropolitana de Washington, disse estar mais preocupada com o efeito que o filme poderá ter na Europa, no Oriente Médio e na Ásia, "onde o anti-semitismo tem aumentado de forma dramática e assustadora". De fato, as críticas mais pesadas a Gibson têm partido de comentaristas do outro lado do Atlântico e de Israel. Em Hollywood, onde os grandes estúdios são dominados por judeus, especula-se se A Paixão terá implicações negativas para a carreira de Gibson, o que também alimenta a controvérsia. Certamente não ajudam a diminuir a polêmica - e o marketing do filme - as declarações que Hutton Gibson, o pai de Mel, fez na semana passada, na Austrália, sobre "o exagero" da versão histórica do Holocausto dos judeus europeus pelo regime nazista de Adolf Hitler durante a 2.ª Guerra Mundial. "Talvez nem tudo (sobre o Holocausto) seja ficção, mas a maior parte é", disse Hutton Gibson ao jornal The Australian. "Você sabe o trabalho que dá para livrar-se de um cadáver? Para cremá-lo? Leva um litro de gasolina e 20 minutos. Seis milhões? Eles (os alemães) não tinham gás suficiente para (matar) tantos. Foi por isso (pela falta de energia) que eles perderam a guerra." Mel Gibson, que havia se desassociado de comentários semelhantes feitos por seu pai, desta vez se recusou a censurá-lo. "Atrocidades aconteceram. A guerra é horrível. A 2.ª Guerra Mundial matou dezenas de milhões de pessoas. Algumas delas eram judeus em campos de concentração", disse o ator e diretor ao New York Times.

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