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Filme de Marco Tullio Giordana consegue renovar a esperança

Volta a primeira parte de ‘A Melhor Juventude’, o antídoto do italiano Giordana contra a negatividade

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2020 | 06h00

Quando esteve em São Paulo, no ano passado, para apresentar as duas partes de A Melhor Juventude e ministrar uma master class, o diretor Marco Tullio Giordana disse ao Estado que sempre sonhou com a carreira artística, mas inicialmente queria ser pintor. O sonho acabou quando, em viagem à França, foi ao Museu Jeu de Pomme e viu todos aqueles quadros de grandes mestres. Caiu na real, deprimiu-se. Jamais chegaria àquele nível. Saiu meio desnorteado e, na primeira ponte sobre o Rio Sena, viu um ajuntamento de pessoas. Era uma filmagem. Descobriu que era um filme do italiano, como ele, Bernardo Bertolucci, com o astro norte-americano Marlon Brando. Último Tango em Paris. Ficou por ali um tempão, rondando o set, olhando. E pensou consigo mesmo – “Isso eu posso fazer”.

É claro que virar cineasta não foi assim tão simples, mas Giordana conseguiu. Somando literatura ao cinema, escreveu os próprios roteiros. Descobriu que o cinema lhe fornecia a ferramenta para pensar a Itália contemporânea. Fez filmes como Pasolini – Um Delito Italiano e os 100 Passos, abordando o assassinato do autor de Teorema para refletir sobre o fortalecimento da direita em seu país, nos anos 1970, e os crimes da Máfia na Sicília. Começou a desenvolver um projeto grandioso – 40 anos de história italiana vistos pela relação entre dois irmãos. Assim surgiu A Melhor Juventude, cujo título vem de Pier Paolo Pasolini. O filme, feito para TV, em episódios – como série –, tem um total de seis horas. Surpreendentemente, foi selecionado para a mostra Un Certain Regard e foi premiado no Festival de Cannes, em 2003. Teve direito a lançamento nos cinemas, foi sucesso de público e crítica na Itália, na Europa toda. No Brasil, foi lançado por Ademar Oliveira, que readquiriu os direitos e está relançando A Melhor Juventude em duas partes, em cópias novíssimas. As primeiras três horas entraram na quinta, 16. As demais, na próxima quinta, 23.

Três horas! Seis! Nem pense em desanimar. De Luchino Visconti, Rocco e Seus Irmãos, a Valerio Zurlini, Dois Destinos, e Ettore Scola, La Famiglia, o cinema italiano sempre foi pródigo em crônicas familiares. No auge do neorrealismo, Vittorio De Sica causou impacto com a relação entre pai e filho de Ladrões de Bicicletas. Giordana nunca se esqueceu de Rocco. Cria uma cena inspirada na volta à casa de Simone/Renato Salvatori, o filho pródigo, quando irrompe no que é uma comemoração – a vitória do irmão pugilista – para comunicar que cometeu um assassinato. Um crime de honra – matou Nadia, a prostituta interpretada por Annie Girardot. A cena de Giordana é diferente, mas a intensidade dos sentimentos e a convulsão familiar são idênticas. Remete a uma tradição humanística cara ao cinema italiano. Família, e história. A grande História, com, maiúscula. Roberto Rossellini, ao proclamar, nos anos 1960, que o cinema se tornara absolutamente vão para ele, adotou a ferramenta da TV e, de alguma forma, virou professor, fazendo filmes para refletir sobre a história, a cultura. A Tomada do Poder por Luís XIV, Descartes, Atos dos Apóstolos, etc.

“O cinema pode refletir sobre a história e a experiência humana sem ser necessariamente didático”, diz Giordana, que gosta de lembrar Alfred Hitchcock. Quem tem mensagem para passar, use o correio. O grande cinema da Itália não foi sua única fonte de inspiração. Ele gosta de contar como os filmes intimistas de Ingmar Bergman o assombraram, e houve uma época em que era louco por Rainer Werner Fassbinder. Da teoria à prática narra a história desses dois irmãos, tão diversos e o curioso é que, em 2017, com Le Due Soldati, também feito para televisão, voltou ao tema dos irmãos. “Ninguém ouve a juventude”, clama Giordana no deserto. A Melhor Juventude acompanha os irmãos Nicola e Matteo, interpretados por Luigi Lo Cascio e Alessio Boni. Dos anos 1960 aos 2000, eles seguem caminhos diversos e a história não se assemelha a nada que o público estivesse acostumado a ver na época. Foi bem depois da experiência de Giordana e do prêmio que conquistou em Cannes que a TV, nos EUA, deu aquela guinada por um audiovisual mais adulto, autoral. “A Melhor Juventude causou impacto pela forma, pelos atores, pelo cuidado da produção. E havia os temas. A enchente de Florença, o terrorismo, a corrupção. A Itália se reconhecia na ficção.”

E mais – “Gostaria que o filme tivesse se transformado em peça de museu e pudesse ser visto com nostalgia, como algo que já foi. Infelizmente, ou felizmente, ele segue muito atual. O mundo está muito cheio de negatividade e A Melhor Juventude retrata uma coisa que acho que está faltando. As pessoas estão muito empenhadas em suas agendas individuais e o filme fala de sonhos coletivos, de tentativas, de erros e acertos. Tenho 69 anos e tento não renunciar aos meus sonhos de juventude. O título vem da coletânea de poemas de Pasolini, de 1954. Havia tanta expectativa. Espero nunca perder a capacidade de acreditar.”

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