Filme de Marcelo Migliaccio homenageia América FC

Torcer para o Flamengo é muita falta de imaginação, quero ver é torcer para o América. Quem fala é um dos personagens do documentário "Paixão Rubra", de Marcelo Migliaccio, bonita declaração de amor ao América Futebol Clube. O filme, de 42 minutos, foi exibido nesta segunda-feira, às 11 horas, na sede do América, na Tijuca, como parte das comemorações pelos 102 anos de fundação do clube.Mas o que é o América? Qual sua mística, a sua razão de ser que prescinde de conquistas e o leva a ser o ´mais simpático´ dos clubes do Rio, o segundo time de todo mundo? É um pouco esse mistério que Migliaccio tenta desvendar. E o faz ouvindo torcedores. Alguns conhecidos, como o técnico Zagallo, o telenovelista Gilberto Braga, o compositor Monarco da Portela, o jornalista Alex Escobar, do Sportv (faltou o José Trajano, americano histórico).Ouve também os anônimos. E entre esses estão os depoimentos mais pungentes, já que torcer pelo América é como se expor a um duplo anonimato. Por que, na época do culto ao sucesso, dedicar-se a um clube que não ganha nada, não tem ídolos, não dispõe de espaço na TV? Amor, dizem. Amor desinteressado, que não espera recompensa ou reconhecimento.Os mais velhos lembram de antigos ídolos, como Alarcon, Canário ou o goleiro Pompéia (este, um mito, cujo depoimento inesquecível faz parte da trilogia Futebol, de Arthur Fontes e João Moreira Salles). Os jovens falam de Robert, do time que chegou à final da Taça Guanabara este ano.Aliás, essa final fica na história como um daqueles momentos cruciais na vida de qualquer torcedor: a reflexão sobre aquilo que poderia ter sido e não foi. O América vencia já por 1 a 0 quando o atacante Chris foi derrubado na área e o juiz nada marcou. Um pênalti, o gol àquela altura, teria mudado o destino da partida, que terminou em 3 a 1 para o Botafogo? O América foi roubado, diz a torcida, como fora em 1955 e em 1974. Clubes de pouco peso político não têm vez.É triste, mas é assim, e a torcida americana é realista. Mas aí é que está a sua beleza. Quixotescamente, sabe que adora um time sem recursos financeiros e que, em caso de dúvida, será preterido em favor de um ´grande´. Neste tempo de esporte mercantilizado, e que cada vez mais perde a graça diante de tantos interesses econômicos, torcer por um time como o América é amar o futebol em estado puro. Essa é a compensação.Mas, que não fosse por outros motivos, o América têm privilégios que o fazem invejado pelos clubes ricos: seu hino, o mais bonito entre todas as maravilhas que Lamartine Babo compôs para os clubes cariocas; a torcida, cuja fidelidade não se baseia em títulos, já que eles pertencem ao passado. E, por fim, o poema a ela dedicado por ninguém menos que João Cabral de Melo Neto (que escreveu também uma poesia para Ademir da Guia, prova do seu bom gosto em matéria futebolística). O poema, intitulado O Torcedor do América FC é recitado pelo ator Flávio Migliaccio, pai do diretor do filme. Que outra torcida pode se orgulhar de homenagem semelhante?

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