Filme de Kore-Eda Hirokazu causa impacto em Cannes

Após a decepção proporcionada pelo novo filme de Pedro Almodóvar, La Mala Educación, o festival já produziu seu primeiro impacto na quarta à noite com o primeiro filme da competição. Nobody Knows (Ninguém Sabe) traz a assinatura de Kore-Eda Hirokazu, o grande diretor japonês de Maborosi e Depois da Vida. Havia um mistério da luz em Maborosi, há agora um mistério do tempo em Nobody Knows e, neste sentido, o filme aproxima-se de Depois da Vida, com aquela intrigante metáfora do cinema, a partir da história dos mortos que precisam escolher um momento de suas vidas para carregar por toda a eternidade.Kore-Eda Hirokazu baseia-se agora num caso ocorrido no Japão em 1988, o dos "quatro abandonados de Nishi-Sugamo", como ficou conhecido. Quatro crianças são abandonadas pela mãe e, para não serem separadas, elas fingem que a vida continua no pequeno apartamento para onde se mudou a família. As crianças são filhas de diferentes pais. O affair real durou seis meses e a verdade só veio à tona porque uma das crianças morreu. Kore-Eda estende o tempo para um ano, marcando o ritmo das estações. Nobody Knows desoncertou o público de Cannes porque nada fica muito claro. A mãe é irresponsável, os diferentes pais não se sentem responsáveis pelas crianças. Elas só têm a elas mesmas e tentam esconder dos vizinhos o drama que vivem. São crianças que não estudam, não tem existência legal. Kore-Eda amparou-se em pesquisas. Havia 533 crianças de rua em Tóquio, com idades entre 7 e 14 anos, em 1987. Este número baixou para 302 em 2000, o que pode ser considerado irrelevante em comparação com o contingente de crianças de rua no Brasil. Uma só criança na rua, diz o diretor humanista, deveria ser motivo de escândalo, em qualquer sociedade responsável.

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