Filme de Jorge Furtado é destaque do Cine Ceará

Já houve glamour e já houve filmes na tela. O 12.º Cine Ceará, que começou na sexta-feira em Fortaleza, teve o charme da convidada principal, a atriz espanhola Sarita Montiel, que assistiu à sessão de abertura em companhia do seu namorado cubano, Tony Hernández. E teve três longas-metragens de bom nível para dar início à mostra competitiva.Em geral, foram bem recebidos pelo público do Cine São Luiz, no centro de Fortaleza, que abriga a mostra. A Festa de Margarette, filme mudo de Renato Falcão, foi a boa surpresa da abertura. O diretor, gaúcho radicado nos Estados Unidos, conta apenas com imagens a história de um desempregado que faz de tudo para dar uma festa à sua mulher.Em entrevista, Falcão disse que a idéia original lhe veio de um sonho. Depois, apenas a desenvolveu. O filme foi rodado em 18 quadros por segundo, o que lhe dá o "ar" daquelas obras antigas, as "corridinhas" do cinema mudo, e expressa o clima chapliniano em que foi concebido. O problema, talvez, esteja no excesso de músicas. Como se o diretor, ao dispensar diálogos, tivesse resolvido se apoiar na trilha sonora - aliás inspirada, de Hique Gómez, que é também o ator principal. O excesso cria problemas de dinâmica na narrativa.Se você só tem pontos altos, fica difícil fazer a história fluir. O segundo filme apresentado, Houve uma Vez Dois Verões, foi, até agora, o que mais agradou à platéia do Cine São Luiz. Sua narrativa ágil e coloquial, colocando um rito de passagem da adolescência em tom de comédia romântica, agradou em cheio. Houve uma Vez é a esperada estréia na direção de longas do cultuado cineasta gaúcho Jorge Furtado. Jorge é autor de dois curtas seminais, O Dia em Que Dorival Encarou a Guarda e Ilha das Flores, este um dos filmes mais importantes do cinema brasileiro do final dos anos 80. Depois, ele começou a trabalhar na TV, onde realizou minisséries (como Luna Caliente) e programas como Comédias da Vida Privada.A estréia no longa-metragem era uma cobrança da crítica e dos colegas. O bom da coisa é que Jorge Furtado aparentemente não sentiu o peso dessa expectativa. Chega ao longa com um filme leve, limpo e solto, agradável de ver e de realização econômica, inclusive do ponto de vista financeiro. O longa foi captado em digital e custou menos de R$ 1 milhão e Jorge não tem a pretensão de rever a história do País ou mudar a concepção do cinema com ele. Fez apenas um filme.A trama começa com dois garotões de Porto Alegre passando as férias na praia. Praia já meio deserta, o mês é março e eles estão ali porque fora de temporada é mais barato. Como qualquer adolescente, os inexperientes Juca (Pedro Furtado, filho do diretor) e Chico (André Arteche) só pensam naquilo. Chico está jogando videogame quando pensa que tirou a sorte grande ao conhecer Roza (Ana Maria Mainieri), um tantinho mais velha do que ele, mas, muito, muito mais experiente das coisas da vida, como o rapaz vai comprovar.A história, aparentemente despojada, é sobre jovens mas não se dirige unicamente a jovens. Afinal, todo muito já foi adolescente um dia e lembra muito bem da angústia sexual que precede e sucede o ingresso na vida sexual. É claro que o diretor trabalhou com suas lembranças, assim como o espectador recorre às próprias como forma de criar empatia com aqueles guris meio perdidos. Em especial com Chico, que não tem a mínima idéia de como lidar com o problemão que lhe caiu nas mãos. Um doce problema, mas um problema, ainda assim.Bem, mas não apenas de memórias, boas ou más, se faz um filme, ou uma obra qualquer. Há uma cultura de fundo que deve sustentar a memorialística. No longa de Furtado, não há apenas referência cinéfila óbvia a Summer of 42, ou Houve uma Vez um Verão, em que Robert Mulligan fala da iniciação adolescente com uma mulher mais madura, entre outras cositas más. Conforme disse em entrevista, na época de produção do roteiro, Jorge Furtado estava completamente imerso na leitura de Shakespeare. "Lia as peças em série, uma a uma, e me perguntava o que aconteceria se eu colocasse em contato um Romeu com uma Lady Macbeth e um Falstaff. Ou seja, um garoto apaixonado (Chico), uma mulher manipuladora (Roza) e um cínico (Juca)."Dessa salada de referências, saiu uma mistura legal, inclusive porque a referência culta fica bem abaixo da linha de superfície, nunca se escancarando, ou se exibindo, e o que se vê é uma agradável narrativa moderna, de bons diálogos e roteiro sem pontas soltas - uma raridade numa cinematografia que cultiva ancestral desprezo pela parte escrita de um filme.O outro longa-metragem exibido, Uma Vida em Segredo, de Suzana Amaral, já é conhecido de quem acompanhou o Festival de Brasília de 2001. Nele, a atriz principal, Sabrina Greve, ganhou a estatueta de interpretação feminina. O filme, uma obra camerística, em tom menor, adaptada de um livro de Autran Dourado, encanta pelo despojamento, pela simplicidade como narra essa vida, também menor e despojada, de uma moça do interior, que vai morar na cidade e nunca se adapta. Um tema caro a Suzana Amaral, que fez sua fama em 1985 adaptando a novela de Clarice Lispector, A Hora da Estrela, história da comovente Macabéa, que sai do sertão para a metrópole e lá encontra seu destino final de pequena tragédia. Uma Vida em Segredo é um filme que merece atenção afetiva por parte do espectador. Compete no Festival de Moscou na quarta-feira.O repórter viajou a convite da organização do festival

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.