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Filme de Cícero Dias tenta explicar obra pela biografia

Documentário dirigido por Vladimir Carvalho sobre pintor modernista pernambucano explora sua relação com o Brasil

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2016 | 04h01

Filmes sobre pintores, de modo invariável, deixam um sentimento de frustração no espectador, até mesmo clássicos como o de Clouzot sobre Picasso – pintor, aliás, evocado no título do documentário que o cineasta Vladimir Carvalho realizou sobre o pernambucano Cícero Dias (1907-2003), Cícero Dias – O Compadre de Picasso, que estreia nesta quinta, 3. O longa brasileiro não é exceção. Contudo, traz imagens históricas e realiza a proeza de unir obra e biografia, mostrando que Cícero Dias saiu do Recife, mas Recife não saiu dele – mesmo quando conheceu Picasso e deu uma guinada em sua pintura onírica, de matriz chagalliana.

O documentário começa no cemitério de Montparnasse, em Paris, onde Cícero Dias está enterrado. Um engenheiro francês, em visita, conta que a escultura sobre o túmulo do pintor atrai os visitantes do cemitério, onde estão enterrados Sartre e Marguerite Duras, lembrando que Dias foi grande amigo de Paul Éluard, poeta dadaísta (e depois surrealista). E de Picasso, naturalmente.

A primeira impressão, a partir do próprio título, é de que a pintura de Cícero Dias precisa ser legitimada pela proximidade de Éluard (que ele ajudou durante a guerra, contrabandeando poemas clandestinos contra os nazistas) ou por meio do compadrio de Picasso. Obviamente, Cícero já existia antes de se mudar para Paris, em 1937, fugindo da perseguição política do Estado Novo, a conselho de outro pintor modernista, Di Cavalcanti. Paris só facilitou sua entrada no mercado internacional. Picasso foi, sim, uma influência, mas não seu fio de Ariadne no labirinto pós-cubista. Como bem diz o crítico Frederico Morais no filme, quem nasceu na Zona da Mata pernambucana tem um jeito de se comportar que não se curva à sedução do mundo.

Vladimir Carvalho não pretendia discutir as mudanças pelas quais passou a pintura do pernambucano, isso é certo. Queria, sim, criar um patchwork memorialista com imagens da casa (grande) paterna de Dias em Jundiá, no município de Escada, no Recife, recorrendo aos depoimentos de amigos (Suassuna, Brennand), do próprio artista e à análise de um historiador (Mario Hélio Gomes), além de outros pintores (José Claudio), críticos e escritores. Conseguiu ainda preciosas imagens de arquivo (Dias com o amigo Gilberto Freyre) e compôs um documentário clássico, quando seria necessário mais ousadia para mostrar como a força revolucionária das imagens eróticas da pintura inicial de Cícero era mais provocativa que os canibais dos rebeldes da Semana de 1922, sucumbindo posteriormente a um lirismo importado das telas oníricas de Chagall.

A esse respeito, Suassuna confirma a influência, mas o pintor contemporâneo pernambucano José Claudio observa que Chagall era soturno, religioso, enquanto Dias era solar e livre como um inocente pagão. Esse é um ponto de discussão que interessa mais que as revelações de caráter anedótico (o dia em que Dias roubou as sapatilhas da atriz Rita Hayworth) oferecidas em profusão. A ligação de Cícero Dias com o grupo regionalista, em 1926, resposta agressiva aos modernistas paulistanos de 1922, ou sua adesão ao abstracionismo, nos anos 1940, são assuntos pouco explorados num documentário dirigido por um veterano de raro talento, mas que, desta vez, parece mais empenhado em mostrar a ruína da aristocracia rural da qual descende Cícero Dias. Literalmente, a considerar o epílogo com a casa-grande destruída ao som do Réquiem de Mozart.

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