Filme de Cao Hamburger empolga o público da Berlinale

Aplausos para O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, vaias para The Good German ("O Bom Alemão"). Nada mais diferente do que os dois filmes exibidos nesta sexta-feira na competição, mas não é difícil perceber o que levou o diretor do evento, Dierter Kosslick, a programá-los em seqüência. Primeiro, passou o filme de Cao Hamburger. Depois, o de Steven Soderbergh. O Ano já estreou nos cinemas brasileiros, há dois meses. Você sabe do que trata. Durante a ditadura, no começo dos anos 70, um garoto é deixado pelos pais na casa do avô. Os pais são militantes políticos. Precisam fugir da repressão do regime, o que significa, metaforicamente, tirar férias. O avô morre e o menino ganha solidariedade de um velho judeu do Bom Retiro. O filme exibido na Berlinale foi exatamente o mesmo já conhecido dos espectadores brasileiros. O mesmo? Numa cena importante, o garoto acompanha seu benfeitor, Schlomo, na sinagoga, onde se realiza um bar mitzvah. Cao Hamburger trata do que foi crescer durante a ditadura. Conta a história de um exílio interno, o desse garoto separado dos pais. O rito judaico, filmado com todo o rigor, adquiriu um outro sentido em Berlim. Aqui, houve o horror do nazismo. Clooney vive alemão Steven Soderbergh conta outra história, que se refere diretamente ao nazismo. Passa-se em Berlim, logo após a derrocada do nazismo, enquanto os japoneses ainda combatem os aliados no Pacífico. Churchill, Stalin e Harry Truman reúnem-se em Potsdam para estabelecer a nova divisão do mundo. Nesse quadro, o bom nazista quer revelar certos crimes que russos e americanos, por diferentes motivos, querem manter secretos. Referem-se a armamentos pesados que serão decisivos no mundo que se desenha. George Clooney faz o oficial americano que volta a Berlim. Encontra sua amada, mas o tempo mudou e Cate Blanchett agora fará tudo para sobreviver. As vaias para Soderbergh foram por que ele ainda bate na tecla da culpa do povo alemão? Ou por que seu filme tenta ressuscitar velhos códigos do melodrama da Warner? A referência é Casablanca. Não falta nem o desfecho na pista do aeroporto, com outro avião, mas agora o sentido é outro. Rick abre mão de Ilsa por grandeza. George Clooney e Cate Blanchett vivem o momento de embaraço em que o véu da verdade finalmente é Descerrado. Cao e sua origem judaica Foram muitos os aplausos no fim da sessão do Ano. Na coletiva, com quase metade dos lugares vazios, um outro aplauso prolongado tentou compensar as ausências. Mesmo num festival político como Berlim, a sala de coletiva só lota com astros e estrelas americanos. Estava cheia por causa de Cate Blanchett, com vaia e tudo. Cao saiu-se muito bem. Contou que, embora o filme não seja autobiográfico, possui muito de sua experiência pessoal. Se o garoto vive entre dois mundos, meio italiano, meio judeu, ele também viveu assim. Filmar O Ano foi uma forma de reatar com sua origem judaica. Filho de um cientista judeu, ele foi criado no respeito da cultura judaica, mas não no temor, nem na crença, do Deus do Velho Testamento. O futebol foi um assunto importante. No filme, a ditadura capitaliza a vitória da seleção na Copa de 1970, mas o futebol não é o ópio do povo, como disse Cao. O futebol nos une, brasileiros, como o meeting point da nossa diversidade cultural. Cao contou que é sua primeira viagem a Berlim. Seu pai nasceu aqui. Há alguns anos, a família recebeu uma carta do governo alemão, devolvendo uma propriedade, na verdade, um terreno, que havia sido confiscado, primeiro pelos nazistas e, depois, pelos Comunistas. Cao estava emocionado, menos pelo valor pecuniário da propriedade que terá de ser dividida entre vários herdeiros, do que pelo significado do gesto. Se um exílio se abre para o garoto de seu filme, no fim do Ano, outro exílio talvez esteja terminando agora em Berlim. A última pergunta. Já que a Copa de 70 é fundamental no filme, Cao saberia dizer a formação da seleção? Ele responde que não apenas ele, mas todos os admiradores do futebol-arte. E recita: Pelé, Gérson, Rivellino, Tostão, Jairzinho, Clodoaldo, Carlos Alberto, Brito, Piazza, Félix...

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