Filme de Babenco tem erros de informação

Só a PM, os presos e Deus podem contar o que aconteceu no Pavilhão 9 da antiga Casa de Detenção de São Paulo. Drauzio Varella, no livro Estação Carandiru, afirma: "Ouvi apenas os presos." Assim também Carandiru, o filme, explica a meia hora de cenas dedicadas ao massacre de 111 detentos ocorrido em 2 de outubro de 1992. Mas além dos policiais e presidiários e da revelação divina, Hector Babenco parece ter ouvido alguém mais para fazer a sua obra. Ao recriar o massacre, Babenco incluiu cenas que não existem nos relatos de presos e policiais, nem mesmo nos mais fantasiosos. Foi a sua imaginação que pôs a cavalaria no interior do Pavilhão 9, que fez os presos amanhecerem no pátio do edifício e criou uma seqüência, não só improvável em meio a uma rebelião como inexistente no livro: a do diretor da cadeia usando um megafone e dialogando com os detentos amotinados. José Ismael Pedrosa, o então diretor, realmente tentou conversar com os presos, mas não conseguiu ser ouvido ou conversar com os rebelados. Acabou atropelado pelos policiais militares enquanto alguns detentos se desfaziam de suas facas, atirando-as pelas janelas do prédio. Nisso, diretor, presidiários e livro estão de acordo. Os cavalos do Regimento 9 de Julho da Polícia Militar fizeram o patrulhamento externo da prisão e do pavilhão - os cães entraram. A tropa de choque deixou o presídio às 4 horas do dia 3, depois de retirar 98 dos 111 mortos em caminhões baú. Nesse momento, os presos já estavam trancados nas celas ensangüentadas do pavilhão. Esses são fatos. Todas essas falhas têm um motivo comum: a falta de pesquisa, de alguém que pudesse impedir, por exemplo, o diretor de pôr em um carro do Garra (Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos) homens vestindo fardas apenas semelhantes às da Polícia Militar, como parece filme, em vez de policiais civis, também conhecidos como tiras e delegados, que são os que trabalham nessa unidade policial. Problemas que poderiam ser evitados. No caso do massacre, a Justiça, ao condenar o comandante da operação, o coronel da PM e deputado estadual Ubiratan Guimarães, a 632 anos de prisão entendeu que os policiais não agiram em legítima defesa, que se excederam. Antes mesmo do julgamento os laudos periciais já confirmavam a versão dos presos de que não houve confronto, de que muitos foram mortos agachados, deitados ou imobilizados e dentro de suas celas, sem opor resistência. Os advogados dos policiais até admitem que houve excesso, mas sempre dizem que seus clientes não podem ser condenados porque a Justiça não descobriu qual foi a conduta individual de cada policial no pavilhão. Assim, passados quase 11 anos da matança, nenhum dos PMs acusados passou um dia na cadeia por causa do crime. Até mesmo o coronel Ubiratan está em liberdade, aguardando como deputado o julgamento do recurso contra sua condenação. Por último, quem conheceu a antiga Detenção estranha os corredores de celas mostrados no filme. São muito pequenos. Babenco utilizou o Pavilhão 2, o menor da cadeia, como locação, mas mesmo nele as galerias pareciam mais extensas. As do Pavilhão 9, então, tinham quase o dobro do tamanho. Era uma imensidão semi-iluminada cortada por vultos de presos saindo e entrando das celas e que formavam um ambiente que ninguém esquece. Imensos também eram os pátios, o vai-e-vem de presos, os campos de futebol, as muralhas. Uma vastidão que não se encontra no filme.

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