Filme de Babenco reproduz códigos do Carandiru

A cena parecia rotineira, depoisque se intensificou o número de seqüestros em São Paulo: o atorMilhem Cortaz é obrigado a parar seu carro, durante uma noite,obedecendo a uma barreira policial. Porém, ao deixar o veículo,ele percebe uma mudança no comportamento do policial, que derepente empalidece e deixa de falar. O oficial havia notado umatatuagem que o ator vem ostentando por conta de seu personagem,um presidiário, no filme Carandiru, dirigido por HectorBabenco: uma caveira com uma faca cravada no alto. Na linguagemcarcerária, a figura identifica um homem que matou um policial.A autenticidade da tatuagem comprova a eficiência dotrabalho da equipe responsável pelos efeitos de maquiagem dofilme. O policial, depois das nervosas explicações do ator deque se tratava de uma imagem falsa, respeitosamente o liberou."Para os atores que desempenham papéis principais, utilizamosum tipo especial de material para que a tatuagem dure mais tempoe não precise ser refeita", comenta André Kapel Furman, um dosartistas que cuidam da maquiagem de efeitos de Carandiru. "Comisso, a continuidade do filme não é prejudicada, ou seja, atatuagem não vai aparecer em diferentes locais do corpo do ator.Seria um deslize que o público na certa perceberia."A produção do filme fez uma extensa pesquisa sobre ossignificados das tatuagens e descobriu uma forma de comunicaçãoentre os presos. Assim, as imagens têm seu significado, desdeuma ode à amada (a figura de uma mulher acompanhada do nome),passando pela religião (a imagem de Nossa Senhora) até aidentificação do crime (além da caveira apunhalada, outra figuraforte é a de um pênis tatuado à força nas costas do presidiárioque cometeu um estupro)."Os presos utilizam uma agulha molhada na tinta decaneta para fazer a tatuagem", conta Furman, cuja equipeconfeccionou 73 carimbos com imagens para serem aplicadas nosatores. "Já as tatuagens dos personagens principais são feitascom outro tipo de material, como a rena." O trabalho tambémprecisa sofrer um processo de envelhecimento na pele dos atorespara dar mais veracidade.Além das tatuagens, a equipe na qual Furman trabalha éresponsável por outros trabalhos, como a confecção de cicatrizese ferimentos. O diretor Hector Babenco pediu ao grupo queconseguisse o máximo de realismo para as cenas em que ospresidiários aparecem com marcas de queimadura por água quente,mordida de rato, além das seqüelas de tuberculose, sarna eoutros contágios. A tarefa mais pesada, porém, vai acontecer nascenas do confronto dos presidiários com os policiais, queresultou na morte de 111 presos, em 1992, o massacre doCarandiru. "Por isso, trabalhamos em harmonia com osresponsáveis pelos efeitos especiais."A mordida de rato é um exemplo de trabalho em conjunto:enquanto Furman e seus colegas cuidam de fabricar a marcadeixada pelo animal na mão do ator, a equipe de efeitos éobrigada a planejar a forma como o rato vai dar a mordida. "Nóssó precisamos saber em que região do corpo vai acontecer amordida e exatamente o tamanho da boca do rato para criar algoproporcional", conta Furman, que participa de seu sétimotrabalho no cinema - ele cuidou dos efeitos de Bellini e aEsfinge, de Roberto Santucci, que estréia em São Paulo estasemana, e dos ainda inéditos Sonhos Tropicais, de AndréSturm, e Amarelo Manga, de Cláudio Assis, além de diversoscurtas.André Furman criou também um projeto independentechamado Cinema de Trincheira, cuja proposta é resumir aprodução cinematográfica ao seu essencial, isolando o set defilmagem e mantendo apenas o necessário à produção. "É umaespécie de Dogma, mas não gosto de comparações", conta.O primeiro trabalho é o curta Noturno, que está emfase de finalização. O curta, dirigido por Furman e com direçãode fotografia de André Luis Folgossi, é interpretado porSamantha Monteiro. "A principal característica é o uso somentede uma iluminação à base de lampiões e fogo, sem nenhum auxíliode luz artificial, uma vez que na história não há luz elétrica", explica Furman.

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