Tony Gentile/REUTERS
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Filme de Alfonso Cuarón ganha Leão de Ouro

‘Roma’ retrata a complexidade da sociedade latina e a ‘invisibilidade’

AFP

10 Setembro 2018 | 06h00

O filme Roma, do diretor mexicano Alfonso Cuarón e distribuído pela Netflix, ganhou o Leão de Ouro de Melhor Filme na 75.ª edição do Festival de Cinema de Veneza, no sábado, 8. O júri, presidido por seu compatriota Guillermo del Toro, vencedor do mesmo prêmio no ano passado, reconheceu a obra de forte tom autobiográfico, que se passa no México dos anos 1970.

Sem celebridades, o filme mais intimista do cineasta, em preto e branco, se inspira em sua própria família, nos amores e desamores de criados e patrões, um documento emocionante e comovente sobre as diferenças sociais e raciais de seu país.

Depois do hollywoodiano Gravidade, vencedor em 2013 de sete prêmios Oscar, o cineasta mexicano volta a filmar em espanhol para narrar a América Latina que conhece, onde contrastes sociais convivem em um universo repleto de sentimentos, reflexões e diferenças culturais que se cruzam e se alimentam.

A vitória de Cuarón relança também o debate sobre a Netflix, gigante audiovisual que produziu e distribuiu o filme, e abre caminho para outro Oscar do diretor mexicano. Cuarón também recebeu, no sábado, o prêmio SIGNIS da Associação Mundial Católica da Comunicação pelo mesmo filme. 

Roma é dedicado a Libo, a babá de Cuarón. Sua personagem, a doméstica de origem indígena Cleo, é interpretada magistralmente por Yalitza Aparicio. “Ela foi minha babá na infância e depois se tornou parte da família, e nós viramos parte de sua família”, explicou o cineasta.

Qualificado por vários críticos italianos como “obra-prima”, “épico” e “deslumbrante”, o filme é um retrato intenso muito pessoal do México dos anos 1970, com suas diferenças sociais e raciais. A infância daquele menino que cresceu em uma casa da rua Tepeji é a matéria-prima de uma obra que mostra a complexidade da sociedade da América Latina, com seus contrastes, injustiças, classes e política.

“Os cineastas não dão a voz a ninguém, são os outros que emprestam sua voz. Em meu caso é mais perverso porque as diferenças entre classes sociais e raças me parecia algo óbvio”, explicou à imprensa. “Isso porque não considerava Libo uma mulher, nem uma indígena. Era invisível. Meu filme fala dessa invisibilidade que há no mundo”, acrescentou o cineasta.

Outros prêmios. O Leão de Prata e o Grande Prêmio do Júri foram para The Favourite, do grego Yorgos Lanthimos, um filme sobre o poder e as mulheres, baseado em fatos reais do século 18 na corte da Inglaterra, com três grandes atrizes: Emma Stone, Olivia Colman e Rachel Weisz.

O francês Jacques Audiard, com seu primeiro faroeste The Sisters Brothers, ganhou o prêmio de melhor diretor, com um filme que é uma reflexão sobre a fraternidade – com Joaquin Phoenix, John C. Reilly e Jake Gyllenhaal.

A atuação impressionante do americano Willem Dafoe como o pintor Vincent Van Gogh em At Eternity’s Gate, de Julian Schnabel, lhe rendeu o prêmio Volpi de melhor atuação masculina. Entre as mulheres, Olivia Coleman levou o troféu por seu papel em The Favourite.

A lendária atriz britânica Vanessa Redgrave e o diretor canadense David Cronenberg ganharam um Leão de Ouro pelo conjunto de suas carreiras.

O filme guatemalteco José, do diretor e roteirista sino-americano Li Cheng, uma chocante história de amor homossexual em uma Guatemala pobre, foi premiado com o Leão Queer pela Associação para a Visibilidade do Mundo Homossexual.

Já o documentário do cineasta sérvio Emir Kusturica, sobre a vida do ex-guerrilheiro uruguaio José Mujica, com o título Pepe, Uma Vida Suprema, coprodução argentino-uruguaia, foi premiado pelo Conselho Internacional de Cinema e Televisão da Unesco. Mujica se tornou, involuntariamente, a estrela do Festival de Veneza deste ano, provocando aplausos por sua simplicidade e seu desejo de ser uma referência ética para o mundo depois de sua passagem na segunda-feira pelo tapete veneziano.

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