Istituto Luce Cinecittà
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Filme ‘Dafne’, de Federico Biondi, é lição de vida sem qualquer pieguice

Filme mostra portadora de Síndrome de Down que revela extraordinária força quando precisa superar a perda da mãe

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2019 | 12h00

Em tempo em que inclusão é palavra de ordem, começaram a surgir filmes não apenas sobre a Síndrome de Down, mas interpretados por seus portadores. São os casos dos brasileiros Do Luto à Luta, documentário de Evaldo Mocarzel, e da ficção Colegas, de Marcelo Galvão. É também o de Dafne, do italiano Federico Biondi, filme do qual se pode dizer que é tão emocionante quanto lúcido. 

Biondi diz que a ideia lhe surgiu ao ver na rua um pai e sua filha, ela com Síndrome de Down, de mãos dadas. Pensou: esses são os verdadeiros heróis. Sobrevivem, em solidariedade, numa sociedade em que cada um pensa apenas em si mesmo. 

Eis, sem dúvida, um belo tema. Buscar nas sociedades tão egoístas e mal estruturadas de nossa época as suas frestas, suas exceções, suas, digamos assim, ilhas de bondade e solidariedade. E, num caso como este, tendo como personagens pessoas que até alguns anos atrás permaneciam à sombra, escondidas pelas famílias e vítimas de preconceito. 

Biondi trabalha basicamente na relação pai-filha, fiel à imagem que o inspirou. O pai (Antonio Piovanelli) e sua filha, Dafne (Carolina Raspanti), tentam se reerguer após a morte da mãe (Stefania Casini). Vivem, portanto, uma situação de luto, ainda mais pungente pelo fato de ter sido a mãe a personagem mais forte da casa.

Na situação de luto é a filha quem mais responde de maneira positiva. As forças da vida vêm dela e não do pai, que se abate e cai em depressão após a morte da mulher. Dafne que trabalha em um supermercado (no filme e na vida real), ocupa, na nova estrutura da casa, a função que era da mãe e faz a vida seguir adiante. 

Deve-se dizer que este filme simples se beneficia da escolha da atriz. Carolina Raspanti é, de fato, uma “força da natureza”, como o diretor a define. Carismática, engraçada, capaz de sustentar situações de ambiguidade, ela é a própria alma do filme. Sem ela, Dafne não existiria. 

E nem existiria a proposta de Biondi, de fazer uma obra construtiva, sem cair na pieguice. Ou no paternalismo, no mau sentido do termo. Dafne é retratada como uma pessoa com todos os defeitos e qualidades que pode ter, suas ambiguidades, forças e fraquezas e, mesmo assim, é o tal fenômeno porque consegue dar a volta por cima e superar condições muito desfavoráveis. Tudo é crível e nos emocionamos com ela. Não por ser portadora de Síndrome de Down, porque logo nos esquecemos disso e nos deixamos levar pela personagem fascinante que representa. 

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