Pandora Filmes
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Filme 'Curral' mostra água como moeda de troca eleitoral

Ainda é possível ver a obra de Marcelo Brennand nos cinemas até sexta-feira, 19

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

17 de novembro de 2021 | 15h03

Entre fato e ficção. Em 2008, Marcelo Brennand, sobrinho neto do grande Francisco Brennand, foi à pequena cidade de Gravatá, no Agreste pernambucano, munido de uma câmera para documentar o processo eleitoral. Voltou com um documentário, Porta a Porta, com o subtítulo A Política em Dois Tempos, que lançou em 2010. 



Marcelo pertence à elite nordestina, mas integra a Casa Grande pensante, como Petra Costa. Gosta de dizer que, embora associada a comunidades pobres, periféricas, a ideia do curral eleitoral não é exclusividade do Nordeste. “O que ocorre no rural ilustra, numa escala menor, o que ocorre no jogo político em qualquer lugar. Os direitos, de quem precisa, são trocados por bens materiais.” No centro dos dois filmes está o tema da ética na política. “No Porta a Porta, editava o que as pessoas diziam para criar o meu discurso de diretor. Achei que a ficção, em Curral, me permitiria criar os diálogos e dizer, através delas, o que eu próprio queria.”

De novo a política em dois tempos? Curral mostra Tomás Aquino, o ator de Bacurau e Deserto Particular - indicado pelo Brasil para tentar concorrer a uma vaga no Oscar -, como o cara que conduz o caminhão-pipa. A falta d’água em Gravatá, tanto na zona urbana como na rural, transforma a água em moeda de troca eleitoral. A questão hídrica tem estado presente em filmes como Árido Movie e Acqua Movie. É um tema que preocupa o Brasil inteiro nesses tempos de reservatórios minguados. Tomás liga-se a um político para derrotar o prefeito - José Dumont, brilhante, como sempre. O filme é enxuto. Minimalista. A campanha pelo olhar de Tomás, e como ele percebe que foi usado, quando seu candidato e o prefeito... Olha o spoiler!

Se tinha alguma dúvida quanto à universalidade do próprio filme, Brennand  convenceu-se disso quando Curral integrou a seleção do Festival de Cinema Brasileiro de Paris. “Não foram só os brasileiros, os franceses e até políticos de lá também se interessaram pelo debate do filme.” Para fazer o documentário, Brennand ficou três meses em Gravatá. Ao voltar para fazer a ficção - com pouco dinheiro -, já conhecia o local, e muitos de seus personagens. 

 


O filme não apenas possibilitou a criação de empregos temporários como a própria população nutriu a figuração. “Uma cena como a do encontro do político com eleitores dificilmente poderia ter sido toda escrita. A improvisação foi muito importante. A integração de atores com naturais superou a expectativa. É uma de minhas cenas favoritas”, define o diretor. 

Entre outras salas, Curral está no Petra Belas Artes, onde o Marighella de Wagner Moura segue como impávido colosso de bilheteria. São filmes que, apesar das diferenças, afinam um discurso crítico. Curral leva seu protagonista a uma situação limite. Os mais velhos talvez lembrem Glauber Rocha (Terra em Transe) e Gustavo Dahl (O Bravo Guerreiro). Marcelo Brennand não pensou especificamente nesses filmes, mas, como diz, estudou cinema e seu imaginário foi nutrido por grandes filmes, brasileiros e estrangeiros. O roteirista Fernando Honesko chega a citar os Irmãos Dardenne, Dois Dias Uma Noite. Curral é simples, econômico, sólido. E tem um elenco de feras. 

 

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