Filme conta versão chinesa sobre perda de Hong Kong

A Guerra do Ópio é uma boa oportunidade para o espectador ocidental conhecer a visão dos chineses em relação aos acontecimentos que culminaram, em 1840, no domínio de Hong Kong pelo Reino Unido. Hong Kong sempre foi um excelente entreposto de mercadorias e significava uma porta de entrada para o mercado chinês, condição que prevalece ainda hoje. Suas águas profundas permitem que os portos recebam navios de grande porte sem problemas. Por tudo isso, era uma região cobiçada pela Inglaterra, a potência mundial da época, sempre disposta a invadir novos territórios. Dizia-se que o Sol nunca se punha no Império Britânico. O episódio também traz os holofotes para uma faceta da qual os ingleses certamente não se orgulham. Eles exploravam e incentivavam largamente o consumo de ópio pelos chineses, uma droga narcótica, extraída da papoula que, embora fizesse parte da tradição cultural dos chineses, causa dependência física e psíquica. Segundo os médicos, ao ser inalado, o ópio produz um efeito entorpecente, sensação de bem-estar e rápida dependência. Mercadores ingleses vendiam o ópio por toda a China litorânea, em troca dos famosos taéis de prata, uma espécie de xícara usada como moeda de alto valor. Com boa parte da população viciada, os ingleses estavam recebendo de mão beijada toda a prata da China. Quando o imperador se deu conta disso, resolveu proibir o consumo de ópio, enforcando muitos traficantes e fechando as casas de ópio, espécie de clubes, onde as pessoas se encontravam para consumir o narcótico. A apreensão de 20 mil caixas de ópio deu aos britânicos o pretexto que precisavam para obter no Parlamento a autorização para atacar. A alegação inglesa, que consta em muitos livros de história britânicos, foi a de que os chineses haviam tomado e destruído propriedade dos súditos da rainha. Mas a versão chinesa assegura que as caixas de ópio foram apreendidas de traficantes chineses e apenas depois do fato consumado os britânicos teriam forjado a compra das caixas. No filme, a rainha Vitória, ao aprovar o ataque, declara: "Somos contra o consumo do ópio, mas não podemos permitir que chineses destruam propriedades britânicas". A Marinha chinesa, composta basicamente por pequenos juncos, não tinha a menor chance contra a poderosa British Royal Navy. O resultado foi um massacre tão acachapante quanto seria um jogo entre a seleção brasileira e o time de júniores do Íbis, o time pernambucano, famoso por ser o pior do mundo. Para piorar os portugueses aproveitaram o fato de a China estar enfraquecida pela derrota e se apossaram de Macau, localizada a cerca de 70 quilômetros de Hong Kong. A possessão só foi devolvida aos chineses em 1997, mas possui grande autonomia. O sistema capitalista não foi tocado, já que Hong Kong é altamente rentável assim como está. A China estabeleceu que, durante os próximos 50 anos, a região continua no sistema democrático, com livre circulação de dólares, tendo o inglês como segunda língua oficial e outras coisas inimagináveis no restante do país. Tudo indica que o regime socialista chinês não irá durar tanto. Convencionou-se chamar esse arranjo de "Um país, dois sistemas". Curiosamente, apesar de Hong Kong ser hoje a terra da informática e dos softwares piratas, o filme quase não lança mão dos famigerados efeitos por computador, que infestam o cinema moderno. As cenas de multidão, ataque e a maioria das explosões são feitas à moda antiga mesmo. Como a mão-de-obra chinesa é barata, contratar extras e operários para fazer cenários é um verdadeiro negócio da China. A economia mundial treme só em pensar que toda a China poderá um dia transformar-se numa grande Hong Kong, inundando o mercado com bens de consumo duráveis a preço de banana.

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