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'Filme conferiu a Griffith a reputação de maior mestre da linguagem clássica'

Doutor em cinema pela USP e pós doutor pela New York University, especialista respondeu a três perguntas do 'Estado' sobre 'O Nascimento de uma Nação'

Entrevista com

Ismail Xavier

João Villaverde, O Estado de S. Paulo

29 Março 2015 | 03h00

Como o filme pode ser colocado no cenário de 1915 do cinema?

Grosso modo, a partir de 1912, consolidou-se o processo de aumento da duração dos filmes que passaram de um patamar de 15, 20, 30 minutos ao padrão de mais de uma hora de projeção; enfim, do que hoje chamamos de longa-metragem. A tendência na Europa e nos Estados Unidos era de filmes históricos com ostensiva marca de grande produção com ares nobres de tema sério e técnica apurada. O filme conferiu a Griffith a reputação de maior mestre da linguagem clássica, pois trouxe de forma ampliada o que desenvolvera, como a montagem paralela, no campo-contracampo, nos princípios de concisão e continuidade dramática, de ritmo da ação e da construção do espaço realista. O resultado foi um melodrama de enorme eficácia em sua mensagem maniqueísta voltada para aquele momento que o filme postula como de fundação dos Estados Unidos como nação moderna (embora, no filme pautada pela noção de pertinência étnico-racial e não pela noção de cidadania política).

Um sucesso extraordinário, mas também uma polêmica política e social impressionante, por conta do racismo. Que balanço o senhor faz do aspecto social no cinema de Griffith?

O filme conseguiu um enorme sucesso de público, mas também despertou grande polêmica, sendo o primeiro filme a mostrar a importância do cinema para um debate de temas de grande impacto em nível nacional. Alterou o estatuto do cinema no país e ganhou circulação internacional, suplantando os europeus e fazendo parte da transferência de hegemonia que a Guerra de 1914-18 propiciou.

Como o sr. vê O Nascimento de uma Nação cem anos depois de seu lançamento nos cinemas?

Sem dúvida, um clássico que marca a maturação do cinema clássico em estilo monumental como é próprio das narrativas de fundação nacional do cinema silencioso, tais como Cabiria (os italianos modernos se espelham na vitória de Roma sobre Cartago que definiu a hegemonia do Império na antiguidade); Napoleon de Abel Gance (o herói que salva a nação da crise e traz a promessa de estabilidade e expansão imperial na modernidade); Metropolis de Fritz Lang, uma ficção científica que alegoriza a re-fundação da humanidade alimentada pelo espírito alemão que vem responder à desumanização e decadência moral causada pelo fordismo americano como pilar da modernização-mecanização da sociedade industrial pautada pela linha de montagem e pelo princípio da eficácia. O filme de Griffith é referência obrigatória pois traz o princípio básico: é um melodrama em que o união exitosa de um par amoroso em seu enlace final se confunde com o destino exitoso da nação que supera a crise e se lança na direção de um futuro promissor em que confirmará sua vocação universal.

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