CBS Films
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Filme busca a essência do grande e atormentado Vincent Van Gogh

Dirigido por Julian Schnabel, 'No Portal da Eternidade’ capta a beleza particular da obra do gênio convulsionado pela loucura

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

16 de fevereiro de 2019 | 03h00

No Portal da Eternidade traz dois fatos controversos da biografia de Vincent Van Gogh (1853-1890). Põe em dúvida a versão de suicídio do pintor holandês, que teria disparado um tiro contra o próprio abdômen vindo a falecer dois dias depois. Em seguida, dá como autêntico um caderno de esboços do pintor, descoberto muitos anos depois de sua morte – especialistas do Museu Van Gogh, de Amsterdã, afirmam que o caderno é falso. 

São dois aspectos importantes da biografia deste que é considerado um dos artistas mais importantes e influentes de todos os tempos, mas cuja genialidade só foi reconhecida após sua morte, em Auvers-sur Oise, no sul da França, aos 37 anos. 

No entanto, apesar de tocar nesses pontos polêmicos, o longa de Julian Schnabel busca a essência do grande e atormentado artista que foi Van Gogh. Artista plástico ele próprio, Schnabel opta por um trabalho sensorial. Visa a captar a percepção do artista holandês diante da beleza natural da campanha francesa e seu processo mental capaz de transfigurar essa beleza em outra coisa. 

Esta beleza, digamos assim, de segundo grau, transformada pelo espírito do artista, não pôde ser compreendida no momento em que nascia. Pelo contrário, seus quadros eram considerados “feios” e desagradáveis ao olhar. Foi praticamente expelido do circuito artístico de Paris e resolveu, a conselho do amigo Paul Gauguin (Oscar Isaac), abrigar-se no interior da França, onde a luz era melhor e as pessoas menos hostis. 

Mesmo assim, Van Gogh, interpretado por Willem Dafoe, levou seu tormento consigo. Vítima de depressão, ouvia vozes e, supõe-se, sofria de alucinações visuais. A câmera tenta captar esse universo conturbado pelas exigências da arte e, ao mesmo tempo, convulsionado pela loucura. A tela do cinema explode em amarelo e azul – as cores favoritas do pintor. Em sua relação com as pessoas, vemos em câmera subjetiva (pelo olhar do personagem) as imagens deformadas por uma lente grande angular. Recurso para propor um desvio de percepção do artista, fruto de seus distúrbios mentais. 

Esse aspecto sensorial e a interpretação profunda de Dafoe são o que o filme tem de melhor. Entregue ao papel, Dafoe conduz o espectador tanto a se compadecer do destino cruel do artista quanto a valorizar-lhe a obra. De forma literal, Dafoe mergulha nesse tormento em vida que se traduz em quadros geniais. Van Gogh pintava febrilmente. Quando lhe perguntam por que trabalha tanto, responde: “Porque pintando eu paro de pensar”. Ou, poderíamos traduzir, no trabalho encontra desafogo para seus tormentos internos e dá-lhes a forma de uma beleza particular. Pensa pintando, pois, como dizia outro gênio, Leonardo da Vinci, a pintura é “cosa mentale”. Coisa mental. 

Outro aspecto forte de No Portal da Eternidade é o bem estruturado roteiro, que tem entre seus autores Jean-Claude Carrière, roteirista preferido de Luis Buñuel em sua fase francesa. Depois de ter trabalhado com o bruxo espanhol do surrealismo, Carrière deve ter se sensibilizado para o mistério das coisas e das pessoas, que raramente cabem em explicações racionais. Poucos artistas se prestariam melhor que Van Gogh para ilustrar essa incapacidade do pensamento racional em abarcar as dimensões abertas por um artista de gênio. 

Não se trata aqui de ressuscitar a aura romântica do artista incompreendido. Apenas constatar que as ferramentas da inteligência racional parecem insuficientes para explicar determinadas condições de ascese artística como as que experimentou Van Gogh.

Centrado na imagem, o filme não deixa no entanto de mostrar a dificuldade de diálogo de Vincent com as outras pessoas. Com seu devotado irmão Theo (Rupert Friend), que financia seu trabalho e tenta, inutilmente, protegê-lo do mundo. Com o padre de um sanatório (Mads Mikkelsen), que procura compreender aquele artista para ele incompreensível. Com seu amigo e médico, o dr. Paul Gachet (Mathieu Amalric), terno e devotado, imortalizado pela arte de Van Gogh. Enfim, com as mulheres da estalagem onde se hospeda, com a população do vilarejo, que o vê com receio. Por uma camponesa assustada a quem ele pede para posar em plena estrada. E com os rapazes da aldeia que, talvez de forma involuntária, tenham sido os responsáveis por sua morte prematura. A versão do tiro acidental não está apenas no filme. Aparece, como hipótese, em uma das mais respeitadas biografias do pintor: Van Gogh: a Vida, de Steven Naifeh e Gregory White Smith (Companhia das Letras). 

Van Gogh estava em outra dimensão. Para seu tormento e nossa felicidade, nós, os herdeiros de sua arte. 

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