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Filme 'Brincante' faz mistura saborosa entre diversas artes

Dança, circo, teatro, folguedos populares e música estão no longa de Walter Carvalho com Antonio Nóbrega

Helena Katz, Especial para O Estado de S. Paulo

04 Dezembro 2014 | 03h00

Respeitável público: este espetáculo tem a forma de um longa-metragem, ou melhor, este circo é mostrado como teatro, ou melhor, esse documentário acontece como um concerto musical, ou melhor, aqui temos uma sonata, na qual o tema sempre reaparece. Brincante, o filme de Walter Carvalho com Antonio Nóbrega, que estreia nesta quinta-feira, 4, em São Paulo, é filho de uma identificação mútua entre os dois artistas, que começa pelo Nordeste, que gestou ambos (Walter é de João Pessoa, e Nóbrega, do Recife). 

Nesta quarta colaboração, antecedida por Lunário Perpétuo (2003), Nove de Fevereiro (2008) e Naturalmente (2011), eles fazem da característica que os aproxima, e com a maestria que lhes distingue, uma protagonista. Senhoras e senhores, com vocês, a estrela desse Brincante: uma mistura saborosa e atraente entre dança, circo, teatro, música, folguedos populares, mímica, clown, ventriloquismo, literatura e poesia, temperada pelas histórias de Tonheta, de Mateus, de João Sidurino e sua Rosalina de Jesus (Rosane Almeida).

“Somos um povo muito sincopado, não é a nossa música ou a nossa dança, mas a nossa própria maneira de agir que é sincopada e ambivalente. O filme precisava ter sintonia com isso, que está em meu trabalho, e, por isso, ele é poético e sensorial”, diz Nóbrega.

O projeto de fazer um filme nasceu bem antes. “Em 1992, o espetáculo Brincante entusiasmou cineastas como Luiz Carlos Barreto e Cacá Diegues e, por desencontros de agendas, não se concretizou.” Walter Carvalho apareceria quase 15 anos depois, em Auto de Luz, um especial de Natal da TV Globo dirigido por Luis Fernando Carvalho.

“Começamos a trabalhar nele logo depois do Nove de Fevereiro, em 2008, com o propósito de produzir uma radiografia do universo cultural e artístico da minha carreira, daí ser discreto e sutil com relação à minha vida pessoal, que só aparece através da minha família atuando nesse universo.”

As imagens são os textos do filme e elas nos falam de um mundo que sempre recomeça, fincando as estacas para delimitar o espaço no qual o espetáculo pode acontecer. Talvez essa seja a metáfora mais forte para o que Antonio Nóbrega e Rosane Almeida têm feito pela cultura popular brasileira.

“Cada trabalho que faço, parece que estou começando do começo, porque ainda sou um nome volátil para a maior parte da sociedade brasileira. Depois de mais de 40 anos de carreira, ainda me surpreendo com a desproporção entre o reconhecimento e a extensão do desconhecimento que me cerca. Nunca tive uma grande gravadora, o novo trabalho de dança, que vou estrear no ano que vem, teve seu orçamento reduzido a 1/5 do necessário. Mas já aprendi a trabalhar não como gostaria, mas como é possível, e não sou o único, infelizmente.”

Nóbrega se prepara para “tornar o seu baú ainda mais heterogêneo”. Começa a escrever um ensaio reunindo os três eixos do seu percurso. Parte da sua experiência com os mestres populares, depois vai contar as histórias de como se formaram manifestações como a capoeira, o galope à beira-mar e muitas outras, para finalizar propondo como esses conteúdos e valores podem ser ressignificados hoje. 

“Tenho também um outro projeto, e ainda não sei como os dois se ligarão, pois desejo codificar uma dança brasileira com base em matrizes folclóricas.” Ou seja, o caminhão mambembe que abre o filme continua a rodar pelas esperanças e sonhos que nunca param de anunciar um Brasil que vai começar.

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