Helena Barreto/Divulgação
Helena Barreto/Divulgação

Filme baseado na obra de Ariano Suassuna é rodado no Rio

O 'Estado' acompanhou um dia de gravação no set de ‘O Riso de Ariano’, filme de José Eduardo Belmonte

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

30 Novembro 2018 | 06h00

RIO - Noveleiros devem lembrar-se das cenas de Bibi e Rubinho, Juliana Paes e Emílio Dantas, como o casal do tráfico de A Força do Querer. As cenas foram filmadas na favela Tavares Bastos, no Catete, a mais requisitada pelo audiovisual brasileiro, justamente por ser pacificada. Nesta tarde típica, há uma festa na escola e as mães e as peruas vêm buscar as crianças, que saem com balões. A imagem seria digna de um bairro de classe média, se não fossem a altura – é morro – e a vista espetacular do mar, delimitado pelo morro da Urca e o aeroporto Santos Dumont. Nessa tarde, a favela está agitada porque se rodam cenas de um novo filme, O Riso de Ariano.

Ariano é Suassuna, e o filme dirigido por José Eduardo Belmonte tem a chancela de João Falcão, pernambucano apaixonado pela grande arte do mestre do Armorial. O diretor de dramas fortes (Alemão, Carceireiros) brinca de fazer comédia. Brinca não é o termo. “Comédia é coisa séria, exige muito planejamento. Na comédia, o timing é tudo. Perdeu o tempo e a piada se foi”, reflete Belmonte. Ele admite que fez muita lição de casa. Reviu seus clássicos, não apenas Billy Wilder – uma obrigatoriedade, quando o assunto é humor –, mas também os mestres da cena muda. “Aqueles caras eram maravilhosos. Charles Chaplin, Buster Keaton. Já se passaram quase 100 anos e o humor deles segue vivo, impressionante.”

Fala-se muito no humor de Ariano Suassuna, daí o título, O Riso de Ariano. “O riso dele não é gargalhar. É uma coisa bem mais sutil e refinada, mas como ele mexia com cultura popular, tem gente que confunde com popularesco. Nada a ver”, afirma Tatiana Maciel, que assina o roteiro com João Falcão. Conceberam um roteiro a quatro mãos, com cinco histórias. As cenas gravadas – em HD – pertencem ao quarto episódio da série de cinco, O Furão. “Existem dois tipos de pessoas. As que mentem muito. E as que mentem bem muito. Ariano gostava tanto de falar sobre mentira que alçou a invencionice à categoria de esporte. Ou se pode também dizer – de arte. Extraímos de suas palestras pequenas anedotas, pensamentos e o senso único de humor”, conta Falcão.

A mentira é o traço comum às histórias. Mentira ou consequência. Pode ser uma mentirinha de nada e assumir proporções imensas, como na trama de O Furão, sobre um gringo que se acha supercarioca, malandro, com residência fixa no morro. Quando se esquece do aniversário do amigo, ele tenta consertar o furo dizendo que foi assaltado. Onde, como? O chefe do tráfico não fica nada contente. Na comunidade dele, ninguém é assaltado. Começa uma caçada ao suposto assaltante. De repente, é toda a cúpula do tráfico envolvida.

A primeira cena filmada é um tour pela favela, para turistas. Na segunda, o gringo desce pela viela para entrar em casa. Camisa florida, sorriso nos lábios. Tudo isso vai terminar daqui a pouco – quando entrar em cena Jesuíta Barbosa, como o traficante doidão. O gringo é interpretado por Chris Mason, que enrola um carioquês legal. “Ele aprendeu rapidinho para o papel”, conta a produtora Luciana Pires, do Cine Group. Chris fez séries como Broadchurch e estava de volta a Los Angeles quando foi chamado para O Riso de Ariano. “Havia justamente feito o telefilme da HBO sobre a expedição brasileira do presidente Teddy Roosevelt, que conheceu a Amazônia em companhia do Marechal Rondon. Faço o filho dele. É uma história pouco conhecida, mas fascinante.”

O Hóspede Americano tem direção de Bruno Barreto. Foi gravado na selva amazônica e no cerrado de Mato Grosso. “Conheci a diversidade ambiental e climática brasileira e já caí no Rio, nesse morro. Apesar de todos os problemas de vocês (do Brasil), olha que coisa mais linda!”, Chris destaca a paisagem. Os demais episódios chamam-se Vidente, Avião – esse, foi gravado no Uruguai, num avião de verdade –, O Sósia e o último, Disney, sobre um casal que tenta se passar por rico. Todas essas mentiras configuram uma crítica ao Brasil e aos brasileiros? “Você é quem diz”, mas, pelo riso de José Eduardo Belmonte, você pode apostar que sim. Ele entrega o primeiro corte à produtora em janeiro. “Aí eu mostro para a Globo e para a Imagem (distribuidora). Nossa previsão é lançar em agosto (de 2019)”, diz Luciana Pires.

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