Filme argentino sai na frente em Gramado

A segunda noite do 30.º Festival deGramado - Cinema Brasileiro e Latino foi um pouquinho menosmassacrante do que a primeira. Começou com ligeiro atraso(19h40) e terminou "só" à 1 da madrugada (contra 2 danoite anterior). Foram projetados dois longas em competição: olatino El Hijo de la Novia, de Juan José Compostella, e obrasileiro Dois Perdidos Numa Noite Suja, de José Joffily,acrescidos de dois curtas: O Céu de Iracema antecedeu oprimeiro e O Jardineiro do Tempo, o segundo. Foi um programa duplo perfeito. O Céu de Iracema, dacearense Ilziane Filgueiras Mascarenhas, conta, com grandedelicadeza, a história de um menino e uma menina que preparam,separadamente, suas pipas, que as soltam no ar e, ao cabo de umalouca corrida para reaver os brinquedos, cujos fios se enredaram, terminam eles próprios enredados, de mãos dadas, sob o céu deIracema e diante daquele mar. É a história da descoberta do primeiro amor. El Hijode La Novia também fala de amor. Ricardo Darín, de NoveRainhas, vive atolado em problemas familiares e financeiros. Amãe, a grande Norma Aleandro, sofre de Mal de Alzheimer. O pai,o não menos grande Hector Alterio - os dois formavam a dupla deA História Oficial -, quer dar um presente à mulher com quemviveu 44 anos. Quer casar-se com ela na igreja. É um filme sobrea remissão e, por isso, talvez tenha feito tanto sucesso naArgentina. O país, abalado por tantas crises, tem necessidade derenascer. Compostella cria piadas ótimas, sobre Michael Jacksone Maradona, cria cenas que um diretor só pode conceber quandotem atores como Norma e Alterio. Ele fala ao filho sobre amulher a quem nunca deixou de amar, sobre a maneira como elailuminava a vida dele, a vida de todos. O filme fica um tantodiluído na segunda parte, mas como resistir à primeira? O Jardineiro do Tempo é uma produção ambiciosa, queviaja no tempo e no espaço, adotando o formato de uma ficçãocientífica, para destacar a importância do paisagista RobertoBurle Marx na formulação da própria identidade nacional, com osjardins que criou para Brasília. Ninguém discute a seriedade dahomenagem que o diretor Mauro Giuntini quer prestar a Burle Marx interpretado por Luis Mello, mas seu filme não dá.Infelizmente. Também não dá Dois Perdidos Numa Noite Suja,no qual José Joffily, o diretor de Quem Matou Pixote?,transpõe a peça de Plínio Marcos para a Nova York contemporânea,onde Roberto Bontempo faz um ex-presidiário que sonha voltar aoBrasil e se envolve com um garoto que, na verdade, é ela. Débora Falabella é gracinha, mas nem com todo o seutalento consegue convencer como menino que ganha a vidapraticando sexo oral com coroas em mictórios públicos. Não épreciso exigir verossimilhança, sempre, e este talvez seja omenor dos problemas de Dois Perdidos. A curiosidade é queJoffily transformou Débora no equivalente exato - no físico, nopróprio estilo de representação - de Cassiano Carneiro, quefazia Pixote no filme anterior. É o que faz a ponte entre osdois filmes e prossegue com um discurso crítico que o diretorquer fazer sobre o Brasil atual. A intenção é clara, mas daí agostar de Dois Perdidos Numa Noite Suja são outros 500. O repórter viajou a convite da organização do festival.

Agencia Estado,

14 de agosto de 2002 | 17h38

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