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Filme ‘Amanda’ vê o terrorismo pelo viés intimista

Mikhaël Hers faz escolhas ousadas e acerta o tom em obra delicada; 'Amanda' está em cartaz nos cinemas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

17 de maio de 2019 | 03h00

Talvez, para apreciar melhor as qualidades de Amanda, o espectador devesse fazer como o repórter, que chegou ao filme num estado de virgindade mental, sem saber nada da história. Poderia ser um filme muito diferente. Porque Amanda começa de um jeito e, de repente, um plano, e apenas um plano, muda tudo. A mãe solteira que busca um parceiro nas redes sociais, o tio meio irresponsável, que vive de bicos, e a garota, Amanda. O filme mostra o cotidiano dessas pessoas em Paris – o tio, sempre na bicicleta, sempre atrasado, rodando de um lado para outro – e, de repente – olha o spoiler –, descortina-se diante dos olhos de Vincent Lacoste um cenário de horror. Um atentado terrorista, uma praça, que deveria ser palco de encontro e congraçamento, apinhada de cadáveres, e entre eles o da mãe de Amanda.

O tio não apenas tem de contar o que ocorreu à menina. Torna-se seu tutor legal. Mas como alguém que é, em si, meio infantil, pode assumir essa tarefa? Mikhaël Hers não dá muito tempo ao espectador nem a seus personagens para pensar, avaliar. A vida vem, a vida cobra. E a vida segue adiante. Lacoste, que se chama David, não é exatamente aquele sujeito que a tragédia vai transformar num homem melhor, mais responsável, mas, sim, com todas as dificuldades, ele dá conta das exigências do momento. E Amanda – ela já é uma menina madura, inquiridora. Sua infância é roubada, mas o filme não a miserabiliza. O filme, na verdade, não miserabiliza ninguém. Até a mãe de Lacoste, que abandonou a família e foi viver a vida dela, ressurge com a aura de quem tomou muitos golpes da vida, mas aprendeu. É o tema de Amanda. Aprender, amadurecer na marra.

Numa entrevista por telefone, Mikhaël Hers disse que, não apenas como francês, mas cidadão do mundo, o tema do terrorismo cala fundo na sua consciência. E que ele quis abordá-lo pelo viés intimista. Hers chegou a dizer – “Para se informar, para procurar um discurso político, existem outras fontes. Livros, reportagens. Eu sou cineasta, trabalho com ficção e, como tal, me interessa a forma como o mundo se manifesta por meio do melodrama.” Seu filme é muito bom.

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