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Filme alemão sobre Guerra no Afeganistão é vaiado em Berlim

'Inbetween Worlds', de Feo Aladag, fala da fragilização do heroi

Luiz Carlos Merten, Enviado Especial a Berlim - O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2014 | 19h57

Embora os dois filmes exibidos hoje, terça, pela manhã – o alemão Inbetween Worlds, de Feo Aladag, e o brasileiro Praia do Futuro, de Karim Aïnouz – tenham em comum personagens que passaram pela Guerra do Afeganistão, o que realmente faz com que os dois filmes dialoguem entre si é o tema. Tanto Karim quanto Feo, uma atriz que virou diretora, querem mostrar a fragilização do herói. Super-homem despe a máscara e expõe sua dor. No filme alemão, o comandante de um pelotão passa o tempo todo se desculpando. Quando age, sua estratégia é equivocada. Quer salvar vidas, mas quase nunca é o que acontece.

Inbetween Worlds foi o único filme vaiado, até agora, da competição, e talvez tenha sido uma relação preconceituosa contra a mulher que, como Kathryn Bigelow, adentra o universo dos homens e expõe o alto custo da guerra, de qualquer guerra. Mas há outra coisa que une Inbetween Worlds, Praia do Futuro e vários outros filmes aqui na Berlinale (o alemão Kreuzweg, o irlandês ‘71). Todos eles terminam com movimentos de câmera para a paisagem, e só no filme de Karim Aïnouz o homem (os homens) permanecem em cena. Não é por acaso, realmente, que o diretor nunca cogitou trocar o título de seu filme. Era Praia do Futuro, porque tinha de ser. Essa presença humana é uma afirmação política de Karim? E o desaparecimento dos personagens, nos demais? Um sintoma da crise que assola a humanidade? Em Kreuzweg, o movimento em direção à paisagem é corrigido e sobe ao céu. É coerente com o sentido de um filme cujo subtítulo é Stations of the Cross, Estações da Cruz.

Embora a competição seja sempre a prioridade da imprensa diária, porque dela vai sair o vencedor do prêmio principal – o Urso de Ouro –, as outras seções não deixam de apresentar muitos programas atraentes (e inéditos). Um filme virou a sensação do Panorama – Love Is Strange, de Ira Sachs, com John Lithgow e Alfredo Molina. Conta a história de um par gay de meia-idade que resolve assumir a relação. Ambos perdem o emprego, não podem mais pagar o apartamento caro e vão viver sozinhos, cada um de seu lado. O cinema já contou muitas histórias de casais straights de velhos separados pela família (e pela crise), mas nenhum como esse. Tem gente que deixa a sessão chorando.

Pode ser que o nome do francês Guillaume Nicloux não cause nenhum frisson no cinéfilo. No ano passado, ele participou das competição com o remake de A Religiosa. Este ano, está de volta ao Forum com The Kidnapping of Michel Houellebecq. Em 2011, o escritor desapareceu enquanto fazia o tour promocional de seu livro O Mapa e o Território. Rumores na internet indicavam que teria sido sequestrado pela Al-Qaeda. Nicloux conta agora o que realmente ocorreu, e com o próprio Houellebecq fazendo seu papel diante das câmera. Sequestradores mascarados, caçadores de autógrafos, uma festa no campo, muita bebida e salsichas polonesas. Impossível não se divertir.

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