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Filme ‘A Terra e a Sombra’, do colombiano César Augusto Acevedo, é inspirado pela dor

Longa está em cartaz no Brasil

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2015 | 04h00

Foram quase oito anos da vida do diretor colombiano César Augusto Acevedo. No final, A Terra e a Sombra recebeu a Caméra d’Or no Festival de Cannes. O melhor filme de diretor estreante. “A Caméra d’Or foi a maior recompensa que um filme da Colômbia já recebeu. Apostava na história, que era humana e poderia chegar às pessoas numa escala mundial, mas o prêmio, superou a expectativa. Toda a equipe reagiu como se fosse uma vitória pessoal, e de certa maneira foi, porque o comprometimento foi visceral. Só assim conseguimos concluir a produção.”

Ele destaca a participação da empresa brasileira (paulista) Preta Portê. “A colaboração continental não só é possível como necessária.” A história é sobre esse homem que volta para casa, após um longo afastamento. Seu filho está doente. Ele reencontra não apenas a velha casa, mas seu mundo em ruínas. É um filme sobre perda, afeto, sobre a ligação das pessoas com a terra. “O filme começou a nascer num momento muito duro para mim. Havia perdido minha mãe, que sempre me apoiou muito e foi a grande incentivadora para que eu perseguisse meu sonho de realizar filmes. Queria muito falar sobre minha perda, exorcizar o sofrimento. Mas dei-me conta de que o processo seria longo e difícil e que eu não poderia apostar tudo no impacto de uma dor tão pessoal. Precisava tocar os outros e isso só seria possível se parasse de girar em torno do meu umbigo. A história foi construída sobre lembranças, mas senti que só saindo do meu círculo (familiar) iria tocar um público maior.”

Acevedo filmou numa região que conhecia, e isso ajudou bastante. “É uma área que foi muito danificada pela cultura de cana de açúcar. Falando da doença e do sofrimento de pessoas, eu podia falar sobre a terra e das cicatrizes que nós, humanos, impomos à natureza.” Embora seja um diretor jovem, numa cinematografia sem muita tradição, Acevedo tem seus mestres. “Admiro muito Andrei Tarkovski e Robert Bresson. Um é o mestre do tempo, o outro talvez o autor mais despojado do cinema. E ambos são intimistas, interessam-se mais pelos sentimentos do que pelos acontecimentos.” Mas ele admite uma terceira e muito forte, talvez mais próxima influência – a do mexicano Carlos Reygadas. “Seu cinema tem uma pegada mística que tem tudo a ver com minhas formação e a cultura em que sempre vivi.”

Como diretor de cinema, Acevedo diz que racionaliza muito, mas seu objetivo é tocar o público pelo sentimento. “Fui roteirista de Los Hongos (de Oscar Ruiz Navia), outro filme colombiano que, nos últimos anos, ganhou reconhecimento internacional. Los Hongos foi muito importante para mim, mas é, essencialmente, um filme urbano. E eu estou falando de terra. Pesquisei muito a obra do pintor francês Jean-François Millet. Acho que ninguém representou o campo como ele. Mesmo que a paisagem não seja a mesma, o procedimento me interessou e ajudou bastante.”

Desde o começo, Acevedo sabia que queria fazer um filme feito de silêncios, e com poucos diálogos. “Isso me forçou a desenvolver um trabalho muito físico com os atores.” A maioria é de não profissionais. “Ninguém melhor que um campônio para expressar a ligação com a terra”, explica. Seu maior desafio? “O incêndio.” Sem ele, o drama não estaria completo. “Era um medo permanente. Vamos conseguir? Não tínhamos recursos nem muita tecnologia, mas deu tudo certo. Às vezes penso que minha mãe velava por nós.”

 

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