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Filme 'A Grande Dama do Cinema' mostra amigos que vivem de recordações

Obra dirigida por Juan José Campanella fala de estrela do passado que vive reclusa em sua mansão para onde leva um ator, um roteirista e um diretor que juntos preservam um passado mágico; veja o trailer

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

15 de maio de 2019 | 03h00

Um conhecido crítico, que é melhor não identificar, deixou ontem a sessão para a imprensa de A Grande Dama do Cinema fazendo uma observação: “É por isso que as pessoas consideram o cinema argentino melhor que o brasileiro”. Juan José Campanella conseguiu – vencedor do segundo Oscar de filme estrangeiro para a Argentina, por O Segredo dos Seus Olhos (2009), ele conseguiu misturar ingredientes de diversas obras para construir algo forte e até original.

É fácil identificar elementos de Sunset Boulevard, a obra-prima noir de Billy Wilder sobre os bastidores do cinema, ou de um clássico de Joseph L. Mankiewicz, Sleuth/Jogo Mortal. Mas a verdade é que, mesmo bebendo nessas fontes, Campanella mantém-se fiel a si mesmo e, no limite, a trama policial de A Grande Dama tem muito a ver com a de O Segredo dos Seus Olhos.

Interessa-lhe o passado que oprime seus personagens, a figura, aqui multiplicada, que encara a aposentadoria e, confrontando paixões antigas, reflete sobre equívocos cometidos e decisões que precisam ser tomadas. Interessa-lhe a inevitabilidade do ato final, quando as coisas se fecham, como uma ‘armadilha mortal’, outro título que Sleuth ganhou no Brasil.

A grande dama, na ficção, é Mara Ordaz, estrela de grandes êxitos do cinema argentino (Dunas de Passión) e vencedora do Oscar de melhor atriz por Santa Gaucha. Mara agora vive reclusa com o marido que ficou paralítico, com seu ex-diretor e o roteirista, nisso ampliando o autoexílio que Norma Desmond/Gloria Swanson se impôs, com seu mordomo, no Billy Wilder. 

Mara comenta, não sem malícia, que Sophia Loren – por Duas Mulheres – e ela foram as únicas a vencer o Oscar da categoria no próprio idioma (esqueceu-se de Marion Cotillard, a Piaf), e faz pouco caso. “Está acabada, a pobre”, diz, referindo-se a Loren. Esse quarteto vive de recordações, numa relação sadomasoquista a que não faltam doses diárias de humilhação e crueldade.

A casa está aos pedaços e as pessoas são ruínas quando chegam as doninhas malvadas. Um casal que chegou ali por acaso, ou assim parece, e que imediatamente identifica a estrela do passado. O homem a adula e, por ser também corretor, oferece-se para vender a mansão, seduzindo Mara com a tentação de um retorno triunfal.

Na verdade, tudo faz parte de um plano que o leitor esperto já deve ter identificado, embora nem por isso deva se furtar ao prazer de ver o filme pródigo em referências a clássicos de Hollywood – e do cinema argentino. Pois a grande dama, na realidade, é Graciela Borges, estrela que forma um arco, tendo interpretado desde grandes filmes do mítico Leopoldo Torre-Nilsson, nos anos 1960, até a matriarca decadente de La Ciénega, de Lucrecia Martel, considerado um dos maiores filmes do novo cine argentino.

Poucas atrizes, no mundo, possuem a coragem de Graciela para afrontar (e enfrentar) o próprio mito. A trama segue até o que parece inevitável – os mais velhos, pobres-diabos, são usados, humilhados, enganados pelos novos, mas há que desconfiar de certa facilidade com que isso ocorre. Porque, como mágicos sacando coelhos de suas cartolas, os velhos artistas, mestres do fingimento, encontram uma maneira de criar mais um ato nessa tragédia que parece encerrada. A reviravolta final – olha o spoiler – muda tudo e restabelece o primado da arte.

Imaginai! Talvez seja pura fantasia, até reacionária, essa ideia de que os jovens predadores, no fundo, são amadores e não são páreos para os profissionais da farsa. O jovem chega a dizer, num determinado momento, que nada do que está fazendo é pessoal. As pessoas entredevoram-se por ser da natureza delas e do sistema – o mercado é competitivo e não valoriza perdedores. Todo o último ato, depois que o filme parece ter terminado, é uma celebração do artifício e do fingimento, como na obra cultuada de Mankiewicz, em que Laurence Olivier atrai Michael Caine para a sua armadilha, para se vingar.

Todo o elenco de Campanella responde bem (Oscar Martínez, Luis Brandoni, Nicolás Francella, etc.), mas o filme é o tributo do diretor à grande arte de Graciela Borges. O curioso é que Campanella já quis fazer esse filme nos EUA, há décadas, com Lauren Bacall. Como ele destacou em muitas entrevistas para promover El Cuento de los Compadrejas (título original), o que faz a força de um homem é a soma de suas fragilidades. Somos todos vilões de uns e heróis de outros.

 

 

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